Saúde

Próteses de alta tecnologia para animais de estimação dão uma ajuda ao melhor amigo do homem

Novas tecnologias como próteses impressas em 3D têm ajudado pessoas deficientes em todo o mundo. Hoje, as órteses para animais estão melhorando as vidas de cachorros deficientes – e, eventualmente, até de elefantes.

Derby, um husky mestiço, nasceu com um defeito congênito que deixou suas patas dianteiras atrofiadas como os minúsculos braços de um tiranossauro rex, tornando-o incapaz de andar ou correr como os outros cachorros.

Hudson, um filhote da raça pitbull, foi amputado na tenra idade de três semanas, quando um agressor o prendeu aos trilhos da linha férrea para morrer.

cão com prótese
Hudson, o cachorrinho da linha férrea começou uma vida nova.

Apesar de essas histórias cortarem o coração, felizmente, para esses filhotes, elas não param por aí. Graças a algumas pessoas generosas, novas tecnologias e à área pioneira da órtese para animais, esses cachorros sortudos recebem uma nova “coleira” na vida.

“A tecnologia pode ser uma valiosa ferramenta na área da prótese veterinária”, disse Derrick Campana, da empresa Animal Ortho Care no Estado de Virgínia. Ele é um dos poucos fabricantes de órteses em todo o mundo que projetam e criam suportes e próteses de alta tecnologia para animais deficientes.

bode com próteses em duas patas

“A tecnologia 3D permite-nos tratar de uma ampla gama de pacientes. Também nos permite tratar de pequenos pacientes que não podíamos acolher antes”.

Com a combinação de métodos tradicionais com novas tecnologias, Campana cria peças personalizadas que melhoram as vidas dos animais de estimação, principalmente cachorros e gatos, mas também cabritos, lhamas, cervos e até mesmo do eventual elefante.

elefante com prótese na perna
Adaptando elefantes a pernas mecânicas na Tailândia.

Campana foi a pessoa que ajudou Derby e Hudson a terem suas patas de volta.

Campana explicou que, se por exemplo, um cachorro na Austrália precisar de uma prótese, o veterinário pode realizar uma ressonância magnética e enviá-la para a Animal Ortho Care, onde a equipe pode criar um molde para ser adaptado ao cachorro com deficiência.

Campana disse que as imagens em 3D podem também poupar tempo, quando forem necessárias repetidas solicitações de um mesmo dispositivo ou quando uma prótese quebrar, uma vez que não há necessidade de se recomeçar do zero.

carneiro com prótese
Félix, o carneiro, sorrindo na Espanha.

Derby, o Blade Runner

Tara Anderson encontrou Derby em 2014 na Peace and Paws, um abrigo para animais em New England. Era impossível não notar o pequeno mestiço de Husky com suas patas dianteiras seriamente deformadas, arrastando-se no chão, enquanto os outros cães corriam e saltavam.

A imagem não saía de sua cabeça e, finalmente, ela voltou e se ofereceu para adotá-lo.

“Eu ficava olhando para a foto dele e ouvindo sua história e eu chorava, literalmente, todas as vezes”, disse ela. “Tinha que tentar ajudar este cachorro”.

Para aumentar sua mobilidade, Anderson arranjou um carrinho com rodas, que pudesse ser preso às patas dianteiras de Derby. Mas sua mobilidade ainda era limitada; ele não conseguia correr ou brincar com os outros cães.

Anderson, gerente da 3D Systems, contou com a ajuda dos colegas de trabalho Kevin Atkins e Dave DiPinto, ambos designers de 3DS, para usar a tecnologia 3D para criar próteses personalizadas para Derby. Ela procurou Campana para que também participasse por causa de sua competência técnica em órteses.

Com o uso do software de modelagem 3D, a equipe criou um modelo das patas dianteiras de Derby e projetou meias personalizadas para serem adaptadas a seus membros atrofiados e também projetou as lâminas em formato de roda que se tornariam suas pernas protéticas em 3D.

O projeto inicial foi intencionalmente pequeno para dar tempo a Derby para aprender a andar e correr com suas novas próteses e para fortalecer os músculos das costas e assim poder passar para um projeto maior que lhe permitiria andar com as costas em linha reta como os outros cachorros.

“Derby era um caso complexo e penso que não teria funcionado se não tivéssemos usado a impressão 3D”, disse Campana. “Pelo fato de o arquivo estar armazenado no computador, não precisamos criar moldes com as mãos repetidas vezes”.

Estúdio de Derrick Campana
Estúdio de Derrick Campana.

Muitas vezes, ressaltou Campana, é preciso elaborar múltiplos projetos e várias cópias de cada design para criar uma prótese na medida certa para o animal de estimação. Isso se aplica aos materiais e também ao design.

“À medida que aprimorávamos o design cada vez mais, as necessidades estruturais mudavam e assim começávamos a analisar todas as nossas tecnologias e verificar qual delas oferecia a melhor adaptação”, disse Anderson. “Precisávamos de algo como um náilon que tivesse a capacidade estrutural necessária, mas também um pouco de flexibilidade, como um joelho de verdade”.

No caso de Derby, a solução foi a Sintetização Seletiva a Laser (SLS, na sigla em inglês), um processo de fusão de minúsculas partículas via laser para a criação de uma prótese resistente, embora um tanto flexível.

“Derby adaptou-se muito bem à nova prótese”, disse Sherry Portanova, que – juntamente com seu marido, Dom – adotou Derby.

Os Portanovas relatam que Derby agora corre de três a cinco quilômetros por dia e consegue sentar-se reto como os outros cachorros, ou seja, faz coisas que nunca conseguiu fazer antes.

Hudson, o filhote da linha férrea

Em 2012, trabalhadores da estrada de ferro em Albany, Nova York, encontraram três filhotes de pitbull cujas patas traseiras haviam sido pregadas nos trilhos. Vítimas de abuso, os filhotes estavam extremamente desidratados, subnutridos e sofrendo de infecções graves quando foram levados para o abrigo de animais Mohawk Hudson Humane Society.

Um filhote não sobreviveu, o segundo perdeu dedos das patas e o terceiro – Hudson – perdeu sua pata traseira esquerda.

Quando os ferimentos físicos de Hudson estavam finalmente sob controle, Richard e Rosemarie Nash adotaram o filhote e iniciaram o trabalho para ajudá-lo a superar seus pesadelos e problemas de confiança.

Enquanto isso, Campana começou a criar uma prótese para o filhote.

Neste caso, Campana optou por construir o dispositivo manualmente, usando materiais como polipropileno, polietileno e outros copolímeros que pudessem ser moldados a vácuo.

“As tecnologias 3D certamente têm seu lugar”, disse Campana, “mas, às vezes, a melhor opção é usar métodos tradicionais com materiais que ofereçam extrema durabilidade a um custo razoável”.

Muitas vezes, o seguro não cobre próteses para animais de estimação. Campana busca materiais de baixo custo que durem bastante tempo, para manter o custo baixo para os clientes em termos de materiais e de resistência.

Campana criou cinco próteses diferentes para Hudson e encontrou defeito em cada uma delas, antes de chegar à versão final do que acreditava que poderia funcionar para Hudson.

“Você cruza seus dedos toda vez que adapta uma prótese”, disse.

Quando ele colocou a prótese na pata atrofiada de Hudson, parecia que o sapatinho de cristal havia sido feito para Cinderela. O filhote se exibiu em volta da sala com um grande sorriso na cara.

“Era um Hudson totalmente novo”, disse Nash, observando. “Era como se estivesse dizendo ‘Estou livre’”.

Hoje em dia é evidente que Hudson já progrediu muito. Agora Hudson é um cão para terapia de pacientes que passa seu tempo visitando hospitais, centros de saúde e escolas, com Nash, divulgando a conscientização sobre a crueldade com os animais e levando conforto e sorrisos para as pessoas mais necessitadas.

Por esse trabalho, Hudson foi homenageado na cerimônia anual Hero Dog Awards (Prêmio de Cão Herói) de 2015 da American Humane Association (Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal) em Los Angeles, onde conseguiu andar no tapete vermelho sobre quatro patas, graças à sua nova e reluzente pata vermelha, branca e azul.

O crescente campo de órteses para animais

Apesar de Campana ter passado da órtese humana à órtese para animais de estimação há apenas alguns anos, seu trabalho já se estende muito além da comunidade canina.

Até hoje, ele criou próteses para bodes, carneiros, lhamas, cervos, burros, cavalos e, sim, até mesmo elefantes.

tartaruga no deserto

Ano passado, ele viajou para a Tailândia para montar um laboratório de próteses veterinárias e criar próteses para Mosha e Motala, dois elefantes que foram usados para carregar toras de madeira, separadamente, até serem amputados por minas terrestres. Campana criou uma página GoFundMe para angariar fundos para esse tipo de trabalho beneficente.

Ele diz que ama o que faz porque é gratificante.

“Muitas pessoas acham triste quando veem esses animais. De minha parte, acho algo maravilhoso quando conseguimos ver um cachorro andar novamente ou, talvez, até mesmo andar pela primeira vez na vida”, disse. “Poder ajudar alguém – uma pessoa, um cachorro, o que for – a ter uma vida melhor. Não há nada melhor do que estar envolvido nisso”.

Todas as fotos são cortesia de Derrick Campana.

Compartilhe esse artigo

Tópicos relacionados

Saúde Inovação Tecnológica

Leia também