Saúde

Aplicativos transformam a saúde feminina em dados

Apps que registram o ciclo menstrual são ferramentas para evitar ou planejar uma gravidez, mas merecem atenção quando o assunto é a privacidade desses dados.

Muito embora as mulheres menstruem desde que o mundo é mundo, pouco se fala a respeito do assunto em pleno século 21. Ainda que isso seja vital para que a humanidade continue, basicamente, existindo. Das transformações que essa segunda primavera feminista está trazendo para o cotidiano de grande parte das pessoas estão algumas de cunho tecnológico. Por aqui já falamos de cinco produtos inovadores que têm como objetivo melhor servir a mulher que mensalmente encara os efeitos do seu ciclo menstrual, que consiste não apenas no sangue que desce, mas também em alterações hormonais que mexem com todo o corpo e de fertilidade, tão importante para a já citada manutenção da espécie.

Se houve uma época não muito distante em que a Apple lançou um kit de saúde embutido em seu sistema operacional, o iOS, sem um recurso capaz de registrar o período menstrual dos usuários do sexo feminino, dois anos depois o cenário é outro. Hoje existem mais de 200 aplicativos na Google Play e na Apple Store com a promessa de ajudar as usuárias a conhecerem melhor o funcionamento do seu ciclo menstrual. Em tempos de discussões sobre contracepção não-hormonal, muitas mulheres preferem analisar seus dados para evitar ou planejar uma gravidez, afinal, já existem apps para isso, assim como há prós e contras.

Mas, afinal, o que registram esses aplicativos?

Um dos mais baixados nas lojas de aplicativos é o Clue, que inclusive foi responsável por levar o registro do ciclo reprodutivo feminino ao iOS 9, em 2015, segundo a Wired. O Clue se apresenta como um “app de saúde feminina que usa a ciência de dados para ajudar você a descobrir os padrões únicos em seu ciclo. Ele te lembrará sobre sua menstruação, TPM e janela fértil”. Recentemente, o app criado por um empresa de Berlim, na Alemanha, lançou uma nova funcionalidade, chamada Connect, que permite que a usuária compartilhe informações sobre o seu ciclo com parentes, amigas ou mesmo com o companheiro ou companheira.

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Outro aplicativo bem popular e que já deu origem a vários outros é o Glow. Além da menstruação, o Glow é, segundo a empresa, um “rastreador de ovulação, um calendário da fertilidade”. Ele registra a menstruação, o humor, os sintomas do ciclo, a vida sexual e até os medicamentos que a mulher toma. Desenvolvido para auxiliar aquelas mulheres que desejam engravidar (ou evitar a gravidez), ele possui recursos até para ajudar usuárias submetidas a tratamentos de fertilidade. Além do Glow, que é o mais baixado da companhia, existem o Glow Nurture, para a mulher acompanhar a gravidez, registrando as vitaminas que toma e fazendo fotos da barriga, por exemplo; o Glow Baby, para registrar atividades do primeiro ano do bebê, como a amamentação; e o Eve by Glow, mais voltado para o controle da menstruação e a vida sexual das usuárias, no qual é possível dar detalhes das relações, se foi com ou sem proteção e como a mulher ficou se sentindo depois.

O pessoal da Glow vai mesmo além. A versão paga dos apps oferece uma espécie de consórcio: sucesso nas tentativas de engravidar em um prazo 10 meses por $50 dólares ao mês. Em caso de falha, a empresa diz que paga o tratamento de fertilidade.

Top 1 na categoria Saúde e Fitness em mais de 43 países e Top 5 na categoria Saúde e Fitness em mais de 63 países, o Calendário Menstrual diz ter mais 40 milhões de usuárias de Android. Além de informações sobre a próxima menstruação, alerta de dias férteis, ovulação e risco de gravidez, o app tem lembretes para a mulher não esquecer de tomar a pílula anticoncepcional. Como nos demais apps desse tipo, ou menstruapps, como esses softwares vêm sendo chamados, é possível adicionar notas pessoais para acompanhar o dia a dia e tendências dos ciclos anteriores, “facilitando na hora de reportar ao seu médico”, sugere o app. Além do ciclo menstrual, o app registra informações de relações sexuais, temperatura, sintomas e IMC. Há, por exemplo, gráficos de peso, para quem quiser cuidar do corpo e não só prestar mais atenção no próprio ciclo.

Com recursos semelhantes e disponíveis para as mesmas plataformas, os aplicativos de menstruação chegaram para ficar, mas optar por um deles não deveria ser apenas uma questão estética. Se por um lado o registro de dados ajuda as usuárias a conhecer melhor o funcionamento do próprio corpo, por outro lado acende a luz para um debate que é cada vez mais importante: para onde também estão indo esses dados compartilhados com aplicativos?

A questão da privacidade dos dados

Um texto recente do jornal Nexo funciona como alerta sobre o assunto. Recentemente, o aplicativo Glow foi alvo de uma denúncia feita pela organização de defesa do consumidor Consumer Reports, que percebeu falhas graves de segurança. Praticamente qualquer pessoa poderia ter acesso aos dados íntimos fornecidos por suas usuárias ou as conversas privadas discutidas nos fóruns fechados. Segundo o fundador da Glow, Max Levchin, as falhas foram corrigidas e os dados não foram comprometidos. Porém, em seus termos de uso, a empresa admite fornecer os dados para fins de marketing direcionado.

Uma outra reportagem, da iniciativa de jornalismo de dados Chupadados, feita em parceria com a Coding Rights, e que examinou os termos e condições desses serviços, bem como a política de privacidade, chamou atenção para os negócios de Levchin. “Também é curioso que o outro produto de sucesso da incubadora que gerou o Glow seja um aplicativo chamado Affirm, que funciona como agência de crédito virtual. Depois de engravidar e receber toda a publicidade direcionada, um empréstimo tende a ser a próxima necessidade. Com Glow, dinheiro (para os outros) e reprodução nunca foram tão próximos”, alerta o artigo.

E essa preocupação com a privacidade não é de hoje. Um levantamento feito em 2013 pela consultoria Evon, em parceria com o jornal Financial Times, mostrou que os 20 aplicativos mais populares de saúde compartilham informações com pelo menos 70 empresas de venda de dados pessoais. Ao Nexo, Natasha Felizi, pesquisadora e coordenadora de projetos da Coding Rights, uma organização voltada à promoção de direitos humanos através da tecnologia, disse que nesses apps nada é grátis como parece ser. E quem lucra não é quem menstrua. “Eles podem sim gerar coisas positivas para as mulheres, no sentido de se conhecer. Mas esse conhecimento também se traduz em mais poder e controle de vários mercados”, ressaltou.

Se o Glow é o que tem a política de privacidade de dados mais explícita no que diz respeito ao uso das informações fornecidas pelas usuárias, o Calendário Menstrual é um dos piores segundo o levantamento da Coding Rights. Ao ser instalado, ele pede acesso às contas no seu dispositivo, fotos, mídias, arquivos, controle de vibração e acesso completo às conexões de rede. A política de privacidade é bem curta e genérica, diz que o aplicativo não tem acesso a seus dados pessoais e que não há necessidade de criar uma conta para utilizá-lo. Mas o aplicativo pede, sim, acesso ao e-mail associado à sua app store.

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Por outro lado, o Clue, que foi criado na Alemanha, país conhecido por levar mais à sério questões de privacidade dos dados, é o que passa mais segurança, ainda que compartilhe informações com instituições de pesquisa como Stanford, Columbia, Oxford e Universidade de Washington. A CEO do Clue, Ida Tin, afirma que seu objetivo é promover o avanço da saúde feminina por meio de auxílio à pesquisa científica.

O Clue não exige a criação de uma conta, permite que a usuária armazene as informações no aparelho, e não nos servidores do aplicativo. Caso crie uma conta, a política de privacidade promete hospedar separadamente os dados pessoais dos dados sobre o ciclo para que as informações enviadas para pesquisa sejam anônimas. Além disso, a qualquer momento, é possível pedir que sua conta seja deletada dos servidores, coisa que a Glow, por exemplo, não faz. E, claro, os dados são criptografados.

Em sua investigação, a Coding Rights dá a dica: “na hora de escolher, é importante saber que ao baixarmos um aplicativo, estamos assinando uma espécie de contrato, concordando com a Política de Privacidade do serviço. Essa política de privacidade deve ser clara, dizer explicitamente o que é feito das nossas informações e de que maneira. Em um mundo ideal, com essas informações seria possível julgar se esse contrato é razoável ou abusivo. No entanto, o que tem acontecido com a maioria de serviços online é que a ideia de consentimento passou a ser banalizada, pois, no final das contas, estão nos propondo coisas pouco claras, escritas em letras miúdas em algum lugar não muito visível, e algumas vezes sem muita opção”. E parafraseando um dos lemas feministas: “meu corpo, minhas regras”, na era digital também vale “meus dados, minhas regras”.

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