Experiências Incríveis

Corpo e mente: qual é o papel do cérebro no esporte

Controle de ansiedade e concentração: em uma época em que o vencedor é decidido por detalhes, a cabeça é uma das maiores aliadas dos atletas.

A caminhada do meio-campo até a marca do pênalti no futebol, os segundos que antecedem um lance-livro decisivo no basquete e o derradeiro momento do saque antes do match point no tênis. Em todas essas situações, a cabeça costuma ser mais importante que qualquer tática, técnica ou habilidade. “A mente é a base da preparação esportiva”, diz João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte.

Para Cozac, chegamos em um momento em que a preparação psicológica é fator determinante para definir os vencedores. “O décimo a mais em uma corrida, um percentual maior de acerto de arremesso no basquete… O preparo psicológico, o controle da concentração e o gerenciamento da ansiedade é que tem feito a diferença nesses casos”, diz Cozac. De fato, questiona-se até que ponto o ser humano consegue melhorar na parte física. O matemático Reza Noubary calculou que, atleticamente, o limite humano para os 100 metros rasos é de 9.44 segundos. Atualmente, o recorde é de 9.58.

João Ricardo Cozac já trabalhou com atletas do automobilismo, esgrima, futebol e outros (foto: divulgação)
João Ricardo Cozac já trabalhou com atletas do automobilismo, esgrima, futebol e outros (foto: divulgação)

Emílio Takase, pesquisador da área de neurociência, enfatizou a importância do cérebro na atividade física. “Considerando o sistema visual como um todo, dependemos de 40% a 60% do cérebro para realizar as atividades diárias. Se considerarmos o sistema visual e o motor, chega a 2/3″, comenta. Takase, que tem publicado o trabalho “Neurociência do esporte e do exercício“, lista algumas comprovações científicas de como o equilíbrio da mente interfere no esporte. Por exemplo, há muito mais harmonia nas ondas cerebrais nos atletas experientes em golfe se comparados aos novatos. Para Takase, há alguns esportes individuais que dependem mais da mente do que outros: tênis, tênis de mesa, xadrez e esgrima são alguns dos exemplos.

Como a ciência ajuda o atleta a treinar a mente

Olhos no horizonte, respiração balanceada e passadas rápidas ditam o ritmo de um atleta em uma maratona. No boné, ele carrega uma GoPro, que registra toda a prova em alta qualidade. Meses depois, o esportista senta-se, veste um óculos de realidade virtual e se assiste, como se estivesse disputando pela segunda vez. Em seus dedos, três eletrodos registram e monitoram batimento cardíaco, mudanças galvânicas e respiração. O equipamento, chamado de Biofeedback, é um dos dispositivos utilizados por psicólogos do esporte que querem melhorar o desempenho de seus atletas.

“Ele monitora a coerência cardiorrespiratória: a quantidade de ar que você expira e inspira gera uma função N. Quando essa função N se mantém inalterado, é possível proporcionar um estado de concentração e consequentemente menos ansiedade”, explica Cozac.

biofeedback
O biofeedback é um equipamento que pode ajudar a entender os problemas de ansiedade e concentração dos atletas

Além de simular situações de corrida, o equipamento traz alguns joguinhos que auxiliam a gamificar essa coerência, auxiliando o atleta a atingir o estado de concentração. “Há uma corrida de carrinho, em que existe uma barra que sobe quando a pessoa inspira e desce quando ela expira. Quando é alcançado um equilíbrio, o carrinho dispara”, conta Cozac.

O biofeedback é apenas um dos recursos utilizados para treinar o cérebro. Cozac conta que o trabalho com o atleta começa com um mapeamento com testes direcionados para ação esportiva, visando entender as potencialidades e dificuldades da pessoa. Depois de entrevistas sobre temas específicos como emoção, ansiedade e concentração, é escolhida a técnica a ser trabalhada. “Devemos eleger as técnicas mais congruentes com as demandas daquele atleta. Temos técnicas visomotoras ou imaginativas, que é quando você consegue estimular o atleta em um estado de relaxamento para que ele possa se imaginar na piscina, quadra, campo ou o que for”, afirma.

O Halo é um dispositivo que tem feito sucesso entre atletas. No formato de um fone de ouvido, o equipamento usa a estimulação elétrica transcraniana para ajudar no desempenho. Simplificando, uma corrente de energia controlada é enviada para o cérebro, que pode assim aumentar a habilidade das células cerebrais e melhorar o desempenho, seja levantar mais peso ou aperfeiçoar os movimentos de um golfista. Segundo o site da empresa, atletas têm ganhos em desempenho de ate 13% após a utilização do Halo.

halo
O Halo transmite uma corrente elétrica para o cérebro e promete melhorar a performance de atletas de qualquer modalidade

Outra tecnologia que pode ser utilizada para auxiliar nesse treino é o Eye Tracking Glasses, dispositivo produzido pela SMI (SensoMotoric Instruments). A função desses óculos é melhorar a percepção visual e a atenção. Atletas de esportes como basquete ou beisebol  devem treinar utilizando o equipamento. Há também outras maneiras de treinar ou preparar o cérebro e a mente para a prática esportiva. Técnicas de meditação têm sido indicadas para auxiliar os atletas na concentração. Uma das mais conhecidas é a mindfulness, que se baseia em uma série de exercícios mentais que auxiliam no equilíbrio das ondas alfa.

Takase também comenta sobre outras duas técnicas para treinar a mente: o malabarismo e o videogame. O primeiro é baseado em uma pesquisa que verificou a mudança estrutural no cérebro de doze jovens. Depois dos jovens aprenderem a manter três bolinhas no ar, foi feita uma ressonância magnética funcional e percebeu-se um aumento da área do córtex visual e parietal, resultando na evolução da visão de movimento e na localização espacial. Já em relação ao videogame, Takase cita melhoras na atenção visual após dez dias de treino, baseado em uma pesquisa da Nature. “Além disso, o estudo mostrou que os usuários melhoraram a capacidade de orientação espacial e a resolução temporal”, comenta.

A preparação antes de uma grande competição

Parte do papel do psicólogo do esporte é preparar o atleta para uma grande competição. Segundo Cozac, o trabalho mais importante nesse caso é o do controle da ansiedade. “Eu gosto muito de mostrar o espaço do merecimento do atleta e fazer uma retrospectiva de sua carreira”, comenta. Além disso, o psicólogo faz questão de ensinar técnicas cognitivas para atingir o nível de concentração desejado. Entre as técnicas citadas estão a autoindução, o relaxamento e a respiração.

Já Takase comenta que atletas que têm problemas de psicológico ruim devem fazer um treino intensivo das funções executivas para inibir o sistema límbico ou emocional. Ele cita Guga, Roger Federer, Kelly Slater e Ayrton Senna como atletas que tem domínio das funções executivas.

Cozac, que já trabalhou com atletas de automobilismo, tênis, futebol, artes marciais, esgrima, atletismo e outros, diz que o futuro é esperançoso para o campo da psicologia no esporte. “A área está crescendo e tende a crescer cada vez mais”, comenta. Takese reforça: “Os avanços tecnológicos são de bilhões de dólares. Até 2025, vamos ver uma neuroevolução social que já estará impactando a vida das pessoas”, diz.

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