Mães das invenções

Designer de wearables Anouk Wipprecht: inventar com naturalidade

Ken Kaplan Executive Editor, iQ by Intel

A designer experimental leva os wearables para o futuro ao fundir moda com robótica e tecnologias de computação, buscando inspiração em inventores pioneiros enquanto incentiva jovens meninas a seguirem suas curiosidades por meio da arte e das ciências.

Anouk Wipprecht está expandindo o limite do possível no mundo da tecnologia wearable e nada está fora de questão.

Vestir uma de suas roupas inteligentes impregnadas de computação, cuja maioria é impressa em 3D, é como entrar em uma trama de tempo e espaço onde ciência e arte se chocam. O passado, o presente e o futuro da moda entrelaçam-se com a interação ser humano-máquina – algo que só pode ser explicado por uma investigação mais profunda da alma de Wipprecht e das cientistas pioneiras que a influenciam.

Sua formação em design e engenharia, fascínio pela moda, ciência do comportamento humano, games e interações sociais estão todos presentes em seu trabalho.

“Moda para mim é expressão e comunicação”, disse ela à iQ.

“Quando era mais jovem, eu observava como as pessoas expressavam seu estado de espírito pelo que vestiam. Quero trazer essa ideia de expressão para o mundo digital.”

spider dress

Suas roupas comunicam-se com quem as veste e o mundo ao seu redor.

“Assim que uma pessoa aproxima-se de quem veste meu Smoke Dress, o sistema envolve-a em uma espessa camada de fumaça, como se ela estivesse desaparecendo diante dos seus olhos”, acrescentou Wipprecht. “É uma sensação muito poética para quem veste, assim como para a pessoa que se aproxima.”

Seu mais novo Spider Dress, criado em colaboração com a Intel, é finalizado na gola com as patas de uma aranha robótica que reage quando alguém está invadindo o espaço pessoal de quem o veste. As patas são comandadas pelas tecnologias da computação e comunicação Intel Edison, além de sensores que se adaptam de modo autônomo para auxiliar nas emoções e desejos do seu dono.

Sempre que alguém se aproxima de quem usa a roupa, os membros mecânicos localizados nos ombros do Spider Dress entram em modo de ataque.

“A moda pode ser intelectualmente instigante, algo que obriga as pessoas a pensar e a compartilhar seus sentimentos – e a tecnologia permite-me testar as normas sociais”, disse Wipprecht. “Todos os meus designs desafiam as maneiras como interagimos uns com os outros.”

Synapse dress

O vestidos Smoke e Spider são apenas alguns do portfólio de Wipprecht.

A designer holandesa, sobre quem falou o documentário Hardware Couture da Red Bull TV em 2013, também é conhecida pelo vestido Synapse, que monitora as ondas cerebrais; Intimacy 2.0, vestimentas impressas em 3D para o Cirque du Soleil e o vestido usado por Fergie durante a apresentação ao vivo do Black Eyed Peas no Super Bowl 2011.

HARDWARE COUTURE de Anouk Wipprecht no Vimeo.

Antes de assumir uma posição na Microsoft em maio, ela trabalhou como Designer in Residence na Intel por nove meses. Seu trabalho envolvia a exploração de maneiras inovadoras de usar a tecnologia Intel Edison, criada para adicionar o computador e os recursos de comunicação a quase tudo que pode ser conectado à Internet.

Ela considera o Spider Dress seu design de interação ser humano-sistema mais complexo até o momento, porque ele exigiu que ela sondasse as profundezas da sua formação acadêmica e das suas curiosidades. Ser uma pessoa curiosa é algo que ela comemora todos os dias.

“Não há nada como ser uma jovem com olhos bem abertos, a cabeça cheia de perguntas e o desejo de encontrar as respostas”, disse ela.

Anouk Wipprecht

Instruir meninas sobre a diversão que se pode extrair de iniciativas de engenharia é muito importante para ela.

“Por ser uma mulher em um mundo de tecnologia ainda comandado por homens, eu gostaria de ver mais mulheres servindo de modelo, capazes de inspirar jovens mulheres a explorar a eletrônica na moda, robótica, programação e qualquer outro campo.”

Ela contou que Ada Lovelace (1815-1852), a mulher considerada por muitos como a primeira programadora de computador, é uma grande inspiração para ela e para qualquer pessoa que tenha curiosidade sobre engenharia.

Wipprecht ressalta que Lovelace, a filha do poeta inglês Lord Byron, foi orientada por sua mãe, que acreditava que uma educação robusta erradicaria qualquer traço de insanidade que houvesse em sua família. Essa educação incluiu a matemática e a ciência ministradas pelos melhores acadêmicos, o que lhe permitiu escrever em 1842 um algoritmo para calcular uma sequência de números de Bernoulli com o mecanismo analítico de Charles Babbage.

“Ada fazia questão de nunca aceitar um ‘não’ como resposta, mesmo no seu tempo, em que as mulheres eram mantidas longe de qualquer tipo de trabalho para a ‘mente masculina'”, disse Wipprecht.

“Ela seguiu um caminho que nenhuma mulher havia seguido antes, questionando duas teorias e entidades e depois combinando-as. Isso deu origem a fórmulas revolucionárias que são utilizadas em muitas das máquinas com as quais trabalhamos hoje.”

spider dress

Para seu próprio trabalho, Wipprecht disse que sempre questiona o atual estado das coisas.

“Não tome as coisas pelo que elas são, mas pelo que elas seriam ou podem ser se você girá-las”, acrescentou.

Imagine como suas vestimentas seriam diferentes hoje se sensores e computadores minúsculos fossem integrados às roupas que usávamos há muitos anos.

“Não aceitar ‘não’ como resposta levanta questões e produz discussões, além de conduzir a inovação.”Grace Hopper

Wipprecht disse que também tem Grace Hopper (1906-1992) como referência. Hopper é conhecida por muitas coisas, como a invenção do compilador, a criação de um programa que traduz instruções do idioma inglês para o idioma do computador de destino e por criar o termo “debugging” (depuração), que é amplamente usado por cientistas e engenheiros da computação para descrever a atividade de corrigir problemas de software e hardware.

“Grace Hopper era curiosa e destemida”, disse Wipprecht. “Ela sabia que algumas vezes é preciso quebrar regras para encontrar a resposta. Muitas das ideias do meu design e dos desafios que superei em etapas do design vêm de levar minha curiosidade a novos lugares e fazer tentativas que vão contra a corrente.”

Ela acrescentou que seu conhecimento das ciências físicas e humanas é muito útil sempre que está explorando como uma vestimenta se ajusta, percebe e reage às emoções da pessoa que a usa.

Wipprecht mencionou ainda as mulheres do ENIAC, entre as quais Kathleen McNulty, Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances Synder Holber, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum, como influências de determinação do passado.

Em 1946, essas mulheres formaram uma equipe para programar o ENIAC, o primeiro computador programável totalmente elétrico. Ele foi construído com 18.000 tubos a vácuo e quarenta painéis negros de 2,5 metros.

O projeto secreto tinha o objetivo de medir as trajetórias dos mísseis durante a Segunda Guerra Mundial, mas a guerra terminou antes que o ENIAC ficasse pronto.

Para programá-lo, Wipprecht contou que essas mulheres tiveram que acionar com as mãos 3.000 comutadores integrados a 80 toneladas de hardware.

“Não havia linguagens e ferramentas de programação e elas precisavam seguir diagramas lógicos”, ela acrescentou. “Elas tinham conhecimentos matemáticos que lhes permitiam converter análise matemática em um processo que o circuito eletrônico pudesse entender e calcular.”

Anouk Wipprecht

Esse tipo de experimentação prática é um elemento importante do mundo de Wipprecht. Ao longo do caminho, seu uso da tecnologia evoluiu rapidamente.

“Hoje trabalho com tecnologias que não existiam dois anos atrás”, explicou. “Coisas como o Intel Edison conferem mais integração e capacidade de computação a componentes menores, o que é essencial para os vestíveis.”

Wipprecht disse que as mulheres pioneiras de ontem e de hoje demonstram uma coragem extraordinária e que seus esforços geram novas possibilidades.

“Em lugar de ficar parada dizendo ‘não consigo fazer isso’ ou ‘tudo é difícil demais’, simplesmente explore e questione tudo. Não desista.”

Em uma reunião recente da Salesforce, ela disse à plateia para agir por impulso e acreditar fortemente em como o mundo deveria ser. E depois fazer acontecer.

 

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