Um punhado de estrelas usa RV para desmistificar a ciência e o espaço

Desde um olhar interno das abelhas que sofrem com o distúrbio do colapso das colônias até uma viagem ao redor da Nebulosa de Órion no céu cravejado de estrelas, uma mulher utiliza realidade virtual (RV) para transformar conceitos científicos em experiências imersivas.

Na estreia do filme Fistful of Stars (Punhado de Estrelas) durante o BRIC Celebrate Brooklyn! Festival, 6.000 pessoas reuniram-se na concha acústica do Prospect Park, no Brooklyn, Nova Iorque, para assistir ao que viria a ser a maior experiência de realidade virtual comunitária do mundo. Equipados com óculos de realidade virtual e com aplicativos totalmente baixados, os espectadores foram transportados para a nebulosa de Órion para assistir ao nascimento, vida e morte de uma estrela.

Um espetáculo de ópera ao vivo da Hubble Cantata embalava os espectadores enquanto eles percorriam o espaço como astronautas.

Eliza McNitt é a força criativa por trás de Fistful of Stars. Duas vezes vencedora da Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel (ISEF, na sigla em inglês) e formada pela New York University Tisch School of the Arts, McNitt está aproveitando sua paixão por filmes e RV para divulgar histórias singulares sobre a ciência e o espaço.

Ela teve a oportunidade de compartilhar suas paixões com o grande público quando o National Sawdust, um espaço sem fins lucrativos dedicado à música, situado no Brooklyn, convidou-a a participar da criação de uma experiência inovadora que levasse os participantes a flutuar pelo cosmos. Assim nasceu o Fistful of Stars.

Eliza McNitt
Cineasta Eliza McNitt, criadora do Fistful of Stars.

“Imediatamente sugeri a realidade virtual, pois é o único meio capaz de fazer alguém se sentir como se tivesse realmente sido transportado para outro mundo”, disse McNitt, explicando que a experiência combinou imagens captadas diretamente do telescópio Hubble com simulações fotorrealistas criadas a partir de dados e pesquisa.

“De repente, estávamos em um território inexplorado sem regras nem fronteiras”, explicou.

Uma odisseia no espaço de RV

O próximo espetáculo ao vivo será no dia 25 de maio de 2017, no Kennedy Center, em Washington D.C. Desta vez, uma plateia mais intimista de 2.500 pessoas usará headsets de papelão e um aplicativo em seus celulares para percorrer a galáxia. O barítono Nathan Gunn, uma orquestra de 20 instrumentos e um coro de 100 pessoas do The Washington Chorus executará a Hubble Cantata para completar a experiência do Fistful of Stars.

Jess Engel, que produziu Fistful of Stars para a estreia no parque, explicou que a novidade da RV tornou o projeto particularmente desafiador.

“A RV é um novo ambiente em que todos atuam”, disse ela. “Não estávamos apenas criando uma experiência de RV que seria alimentada por um aplicativo, estávamos orquestrando um evento ao vivo. Precisávamos entender como sincronizar a experiência com a apresentação ao vivo.”

Apesar do estresse angustiante de organizar tudo, Engel disse que o trabalho árduo compensou.

“Em um dado momento, tirei meus óculos de RV e olhei ao redor — todos estavam extasiados com a experiência”, contou Engel. “Fomos todos transportados ao espaço juntos. Foi realmente especial.”

satélite orbitando a Terra

Engel considera que a energia, paixão e ética profissional de McNitt sejam as forças motivadoras que mantêm o projeto em andamento. Embora as duas não se conhecessem antes do projeto, Engel disse que o fato de enfrentarem desafios juntas criou um vínculo singular entre elas.

A atitude positiva de McNitt também impressionou Lisa Watts da Intel, quando McNitt trabalhou em conjunto com a empresa para apresentar o trailer de Fistful of Stars usando headsets da Oculus no estande da Intel na Feira de Eletrônicos de Consumo 2017 em Las Vegas.

 “Ela foi chegando e colocando os headsets nas pessoas. Ela é incrivelmente simpática e ficou fascinada de ver as pessoas fazendo sua experiência de RV”, disse Watts, acrescentando que enquanto muitos ficavam estarrecidos com a viagem planetária, outros demonstravam menos emoção.

“Ela gostou de todas as reações, maiores ou menores”, disse Watts. “O frescor e o entusiasmo que ela demonstra pelo que faz e pela tecnologia são inacreditáveis.”

Watts antevê outras oportunidades para McNitt usar suas narrativas criativas a fim de despertar o interesse pela ciência em seus espectadores. À medida que a tecnologia continuar a avançar, os artistas terão um campo inteiramente novo para desenvolver projetos que incluam RV, vídeo em 360 graus, sensação tátil e muito mais.

“O mundo está ficando realmente multidimensional e não estamos mais vinculados à terra”, explicou Watts, acrescentando que a Intel está buscando maneiras de fornecer as ferramentas para ajudar criadores como McNitt e outros. “Essas tecnologias permitem-nos explorar e contribuir para o mundo de maneiras que seriam impossíveis antes.”

Seduzida pela ciência

A trajetória de McNitt até chegar ao cinema começou com um imprevisto que a colocou entre os melhores e mais brilhantes jovens cientistas da Greenwich High School. Em suas aulas de pesquisa científica, ela teve uma pequena ajuda de seu avô.

O ex-engenheiro químico do MIT mudou o futuro de McNitt quando alertou a neta para as substâncias cancerígenas que eram pulverizadas na casca da sua maçã. Ele queria ter certeza de que ela havia lavado a fruta antes de comê-la.

Aquela maçã, assim como a fruta que caiu e supostamente fez com que Isaac Newton descobrisse a gravidade, transportou McNitt em uma aventura que lhe permitiu conquistar um lugar na ISEF e iniciar sua carreira de cineasta.

Eliza McNitt

“Eu nunca havia pensado sobre o que poderia haver na casca da minha maçã”, explicou McNitt. “Isso me incentivou a tentar descobrir quais pesticidas estavam interferindo na função das abelhas na polinização.”

Réquiem para uma Abelha é um filme que Eliza McNitt produziu junto com Charlie Greene, seu colega de classe na Greenwich High School. Inspirada por seu próprio projeto de pesquisa, McNitt apresentou a ideia para Greene quando ele perguntou se ela tinha alguma sugestão para um concurso de documentários da C-SPAN sobre “a questão mais premente que o Presidente Obama deveria conhecer.” O filme conquistou o primeiro lugar.

McNitt pesquisou diversos pesticidas antes de concentrar-se em um deles: imidacloprida. Sua descoberta de que esse misterioso pesticida era o principal culpado pelo distúrbio do colapso das colônias é anterior a qualquer uma das atuais pesquisas relacionadas ao declínio da população de abelhas. Essa descoberta também a ajudou a alcançar um objetivo pessoal: superar os meninos da sua turma na Feira de Ciências e Engenharia de Connecticut.

“Foi puro acidente, tudo por causa daquela maçã”, lembrou McNitt, explicando que sua conquista do segundo lugar na categoria de ciências da vida da competição estadual garantiu-lhe uma vaga na ISEF. “De repente, vejo-me em uma sala com outros 1.500 estudantes, competindo na maior feira de ciências do mundo. Aquela experiência realmente mudou minha vida.”

Narrativa científica

Após conquistar importantes prêmios na ISEF em 2008 e 2009, McNitt usou o dinheiro dos prêmios para comprar sua primeira câmera, um dos primeiros modelos de alta definição da Sony.

Seu primeiro filme individual seguiu seus coortes na Intel ISEF, uma dinâmica encantadora de pessoas que incluiu um hindu, um criacionista e um judeu em uma viagem com todas as despesas pagas ao CERN, a Organização Europeia de Pesquisa Nuclear.

“Foi nessa viagem que, pela primeira vez, dei um passo atrás e percebi como eu era pequena”, revelou McNitt. “No CERN iniciou-se meu fascínio pelos mistérios do Universo. Desde então, sou completamente obcecada pelo espaço.”

Filmes e magia

Quando McNitt contou para seus colegas de pesquisa científica que iria para a Tisch School of the Arts da New York University, eles ficaram um tanto confusos. Muitos desses alunos estavam se preparando para ingressar no MIT e em Harvard.

“Eu iria estudar cinema porque queria criar narrativas sobre ciência por meio de roteiros. Queria usar essas histórias para transformar a ciência em algo universal, para todos”, explicou. “Eu lhes disse que um dia tudo faria sentido.”

McNitt certamente transformou sua visão em realidade com filmes como Artemis Falls, Without Fire e Codenation, que ampliam as fronteiras da ciência e apresentam personagens femininos fortes e complexos. Contudo, apesar de produzir histórias premiadas e aclamadas pela crítica, foi somente com Fistful of Stars que ela alcançou seu antigo objetivo de carreira.

“Inscrevi o filme no South by Southwest (SXSW) porque achei que seria o lugar perfeito para uma estreia mundial”, disse, acrescentando que nove das suas inscrições anteriores haviam sido recusadas. “Eu estava em um táxi quando recebi a ligação. Não podia acreditar que tínhamos conseguido. Estava tão feliz que comecei a chorar.”

Foi quando McNitt percebeu que o motorista do taxi também estava chorando.

“Disse ao motorista que seu táxi era mágico e ele me disse que estava muito feliz por eu estar tão feliz assim”, falou ela. “Foi um momento realmente mágico.”

 

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