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Games surgem como chance de igualdade e palco de luta para trans

Jogos criam comunidades acolhedoras e possibilitam a discussão sobre gênero, mas ainda falta representatividade trans no cenário gamer.

“Uma boa amiga minha é trans e está procurando por um clã de Destiny 2”. “Hey, pessoal. Tenho procurado por algumas pessoas (trans ou não) para jogar Rainbow Six Siege e Call of Duty”. Esses pedidos são comuns no tópico transgamers, na rede social Reddit. Por lá, mulheres e homens trans se sentem mais à vontade para procurar um ambiente virtual que não seja hostil, uma rotina para quem sofre todos os dias com o preconceito. A frequência diária de postagens evidencia o alto número de pessoas trans que jogam ou se interessam por games — e o espaço online se mostra uma opção para que possam interagir, se divertir e, porque não, lutar pela causa.

O fato de existir uma comunidade exclusiva para essa população gamer não é surpreendente: uma pesquisa da ONG Transgender Europe, voltada à defesa dos direitos de pessoas trans, mostrou que houve 295 casos de assassinatos de trans em 2015. O Brasil responde por 123 dessas mortes, com o México vindo logo atrás, com 52. A hostilidade, que corriqueiramente se transforma em violência verbal e física, afasta essa população de ambientes em que não podem ser eles mesmos. Além de conversar sobre games, pessoas contam histórias de suas transições em espaços virtuais como esse criado no Reddit.

Ophelia Pastrana é gamer, especialista em tecnologia e uma mulher trans. É colombiana, mas está radicada no México, país que está em segundo lugar no ranking de assassinato de transgêneros. Para ela, os games surgem como uma oportunidade para união e luta. “Eu acho que é incrível. Você não acha aceitação em nenhum lugar”, diz. Para ela, os games e os ambientes online podem ser plataformas para discutir as desconstrução dos gêneros. “Você não sabe quem está por trás do personagem”, diz.

 

Ela aponta que um dos principais problemas das mulheres trans é ter coragem para enfrentar um cenário machista. Muitas querem identificar seus avatares como do gênero feminino, mas sofrem com o preconceito. “Há muitas mulheres que usam nomes masculinos”, diz. Ela explica que, quando há a aceitação, o personagem é uma “bonita versão sua” — e isso é importante para os gamers, ainda mais para trans, que lutam para serem reconhecidos como o gênero que se identificam, não com a sua fisiologia.

A toxicidade da comunidade mostra que o problema é para todas as mulheres — não só as trans. Especificamente para trans, Ophelia vê outro problema: “pessoas transgênero sofrem muito ao aparecer em eventos. Algumas vezes são eventos só para mulheres e eles nos veem como homens”, conta.

No Brasil, Raphaela Laet, também conhecida como Queen Bee, é uma mulher trans famosa por seus streaming jogando “League of Legends”. Raphaela disse que o preconceito no jogo está diminuindo. “O pessoal joga com a cabeça mais aberta”, disse ao UOL Jogos. Além disso, ela alerta para a importância de denunciar qualquer tipo de assédio que a pessoa sofrer online. Raphaela tem mais de 65 mil inscritos em seu canal no YouTube.

Em matéria recente na Vice, Matt Baume explicou como os gamers trans acham apoio na comunidade online. “Pessoas trans nem sempre se sentem acolhidos com suas famílias biológicas ou até com seus próprios corpos. Mas para muitos, games — e as comunidades que os jogam — se provaram ser uma inesperada fonte de suporte. Seja jogando online, encontrando-se pessoalmente ou em streaming, pessoas trans que jogam estão se conectando mais do que nunca — e quando se conectam uns com os outros, eles entendem mais sobre eles mesmos”, afirma Matt.

A ideia de querer ser reconhecido como mulher ou homem em um jogo online pode ser explicado por como nós valorizamos o reconhecimento de outras pessoas, segundo a Dr. Adrienne Shaw, professora da Temple University. “Nós formamos nossas identidades em situações sociais. O que significa ser uma mulher, o que significa ser gay, o que significa ser gamer”, disse para a Vice.

A questão é achar essa comunidade: a gamer Cetine usa o Twitch para fazer stream de seus jogos. Enquanto ela joga, interage com a sua audiência. Recentemente, um homem gay mostrou preocupação ao dizer que, se ele fizesse a transição, seu namorado não gostaria mais dele: “Se ele não te amar, outra pessoa vai”.

Games e eSports: palco de luta

 Ophelia achou essa comunidade de gamers trans e decidiu ir além: criou uma equipe de eSports. Chamado de Blink, o time conta com 5 mulheres trans que jogam “Overwatch”de maneira competitiva — mas ainda não entraram em nenhum torneio.

“Nós treinamos e jogamos”, explica. “É muito difícil achar pessoas que são abertamente trans. Mas elas existem e estão por aí”, diz. O time completou um ano e tem como principal objetivo mostrar para a comunidade LGBTQ que é possível ser parte de uma minoria e frequentar esses espaços. “Só queremos que as pessoas saibam que é tudo bem ser LGBTQ e jogar videogames”, completa.

A discussão da participação de pessoa transgênero em ligas de eSports levanta outra discussão, questionada por Ophelia. “Os campeonatos de eSports precisam ser divididos por gênero? Será que as mulheres pensam diferente?”, indaga.

Além de iniciativas como o Blink, há uma outra maneira de ajudar pessoas trans a se sentirem acolhidas pelos games — a representatividade. Enquanto alguns games começam a trazer personagens homossexuais, são poucos os que trazem personagens trans. “É extremamente importante que exista a representatividade”, diz Ophelia.

Ela lembra de alguns casos de personagens trans — inclusive um conhecido de parte do público. Birda, personagem da Nintendo, é uma versão rosa do dinossauro Yoshi, e foi descrito como um “garoto que queria ser chamado de Birdette” quando o personagem foi lançado. Posteriormente, em outras descrições, a empresa disse que a Birdo era uma mulher. “A Nintendo não está gritando por aí que a personagem é transgênero, mas isso já é importante”, conta. Ela lembra de outro exemplo válido: quando Link tem que se vestir de mulher para entrar em um vilarejo só de mulheres.

Outros personagens trans no videogame são Poison, do game “Final Fight”, Vivian, do game “Paper Mario”, e Erica, do jogo” Catherine”. Ainda são poucas menções, mas a expectativa é que a luta pelos direitos dos trans aumente a representatividade no videogame e a união.

 

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