Saúde

“Gameterapia” ajuda paciente a se recuperar de lesões cerebrais

Pacientes neurológicos estão se beneficiando de tratamentos que incluem o uso de videogames na fisioterapia e em exercícios de recuperação das funções cognitivas

Terapias para recuperação de pacientes com danos cerebrais dificilmente seriam vistas como divertidas anos atrás. Porém, pesquisadores da área médica têm se dedicado a estudar o potencial dos jogos digitais para a recuperação de pacientes neurológicos. Diversos estudos publicados nos últimos anos revelam o potencial dos videogames no aumento da motivação e na melhora do desempenho durante tratamentos médicos.

E os resultados têm sido positivos: de acordo com um artigo publicado na revista especializada Games for Health Journal, os games comprovadamente ajudam pacientes em recuperação de AVC (acidente vascular cerebral) a se sentirem mais motivados a se engajarem na reabilitação. Segundo o estudo, um paciente em recuperação de AVC deve fazer pelo menos 16 horas de terapia nos primeiros seis meses após o episódio, mas, em média, 65% dos pacientes acabam abandonando o tratamento por não se sentirem motivados a se engajarem na rotina de cuidados e exercícios solicitada pelos profissionais de saúde. Após levantamento de 18 estudos nos últimos 10 anos, a pesquisa mostrou que em 15 deles o uso de videogames durante a terapia resultou em melhora significativa no desempenho dos pacientes, um índice de 83% de sucesso. O console mais usado foi o Nintendo Wii, em 34% das pesquisas analisadas.

Gameterapia: para além do Wii e do Kinect

O Nintendo Wii foi um dos pioneiros na movimentação do corpo a partir de jogos digitais, uma vez que possui um sensor no controle que os jogadores devem segurar para executar movimentos. O console se popularizou entre um público que não se interessava muito por games, mas desejava ter mais incentivo para praticar exercícios em casa. Não por acaso, o Wii conta com uma grande variedade de jogos voltados para as atividades físicas. Enxergando esse potencial motivador, pesquisadores da área médica passaram a investir no Wii, seguido posteriormente de outros aparelhos com foco em movimentação, como o Kinect.

O uso do Wii em tratamentos de fisioterapia ficou conhecido como “wiiterapia” e ganhou adeptos em centros de pesquisa e hospitais em todo o mundo, entre eles o Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Além dos pacientes em recuperação de AVC, o tratamento também é indicado para paralisias e lesões musculares. A terapia é feita com acompanhamento profissional, que supervisiona a execução dos movimentos e a adequação do programa de exercícios.

Nintendo Wii Remote - With Nunchuck

Além do uso específico do Wii, a chamada “gameterapia” envolve outras abordagens para o uso de videogames em tratamentos médicos, que não necessariamente lidam com movimentação do corpo. Em março deste ano a revista Radiology publicou um estudo que mostra o uso de games específicos para exercitar o raciocínio. Graças aos reflexos, os pacientes com esclerose múltipla foram capazes criar novas conexões cerebrais. Durante um período de oito semanas, os pacientes jogaram games desenvolvidos para fins terapêuticos durante 30 minutos por dia, cinco vezes por semana. Após o tratamento, os participantes do estudo foram analisados em relação a funções cognitivas e compararam seus exames de ressonância magnética. Todos os pacientes que jogaram regularmente e apresentavam perdas na área do tálamo cerebral obtiveram melhoras em seus testes pós-tratamento, o que sugere que o videogame motivou a criação de novas conexões neurais nessa área.

Outro aspecto interessante do estudo publicado pela Radiology é que ele sugere uma opção eficaz de terapia que pode ser realizada na casa do paciente, bastando ele possuir um console e uma cópia do game personalizado para seu tratamento. Essa possibilidade é útil também no tratamento de outras enfermidades, como o Alzheimer e outros tipos de demências comuns em idosos. O desenvolvimento de jogos específicos para tratamento desse tipo de doença são um mercado potencial muito interessante para o desenvolvimento de games, que já está sendo ocupado por empresas como a alemã Memore. A companhia se tornou especializada no desenvolvimento de jogos para Kinect focados no tratamento de Alzheimer e outras doenças cognitivas decorrentes da idade.

Brain game sempre funciona?

Apesar dos resultados positivos na maioria dos estudos que relacionam o uso de videogames a tratamentos neurológicos, os especialistas recomendam cuidado com a moda dos games para treinamento do cérebro, popularmente chamados de “brain games”. Segundo uma declaração assinada em 2014 por 64 cientistas do mundo todo e chamada de “Consenso da comunidade cientifica sobre a indústria de jogos para treinamento do cérebro”, os especialistas alertam para a banalização desse tipo de game.

De acordo com os cientistas é preciso cautela com a publicidade dos jogos focados no treinamento do cérebro, constantemente exagerada. “Nenhum estudo demonstrou que jogar ‘brain games’ cura ou previne Alzheimer ou outras formas de demências” diz o documento. Os fatores que provocam as enfermidades em questão dependem de uma grande complexidade de variáveis que envolvem, entre outras, tendências genéticas e estilo de vida, e seria precipitado exagerar na importância dos games sem levar em conta todos esses fatores, segundo os signatários do consenso.

Apesar dos videogames terem demonstrado ser aliados úteis na luta contra doenças neurológicas, o acompanhamento de especialistas e a combinação da gameterapia com outros métodos mais tradicionais é importante para que os resultados sejam realmente significativos.

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