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Indies brasileiros apoiam a diversidade nos games

A população LGBTQA ainda enfrenta dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Por isso a TinyBird Games quer dar oportunidades para essas pessoas desenvolverem jogos.

O Brasil possui um dos maiores índices do mundo em violência contra a população LGBTQA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer e assexuais ou aliados), e integrar pessoas que muitas vezes são expulsas de casa ou do ambiente escolar ao mercado de trabalho é um desafio. Pensando nisso, um grupo de profissionais brasileiros resolveu fundar um estúdio de desenvolvimento de games com foco no acolhimento e na promoção da diversidade em sua equipe.

A TinyBird Games surgiu em julho de 2016 e é formada pela fundadora e programadora Erin ‘Saishy’ Calmon, pela relações públicas Ariel Paiva e pelo ilustrador e concept artist Caique Guerra. Erin conta que a ideia para fundar a TinyBird surgiu após ela se dar conta da dificuldade de uma pessoa LGBTQA+ começar a trabalhar na área de games, mesmo no cenário independente (indie).

“A ideia começou a se formar após eu observar diversos relatos de pessoas da comunidade expressando as dificuldades encontradas e suas experiências pessoais, até mesmo entre pessoas que se consideram realizadas”, conta a fundadora. “Com isso a ideia acabou se juntando a minha vontade de começar minha própria empresa na área, principalmente depois do fato de começar a interagir com os movimentos LGBTQA+ e o meu desejo de contribuir com a causa aumentar. Ainda é muito difícil para nós ingressarmos formalmente em praticamente qualquer área, para aqueles que desejam começar como indie então a dificuldade é ainda maior pois requer um capital inicial ou que a pessoa seja capaz de se manter por fora, ambos fora da realidade da maioria das pessoas LGBTQA+”, afirma.

Existe também a questão do mercado de games ainda estar em um momento de transição em relação à diversidade, já que o questionamento da imagem dos games como um território exclusivamente masculino é relativamente recente. “O ambiente de trabalho na área de jogos, mesmo com sua melhora nos últimos tempos, ainda é muito preconceituoso e segregacionista. Quando se fala sobre jogos sempre se pensa no público masculino heterossexual e cis, e as pesquisas apontam que esse é o pensamento das empresas de público alvo para contratação e vendas. E essa não é mais a realidade de quem consome ou produz jogos de forma independente. A imagem precisa ser mudada no cenário indie para que as pessoas possam realmente vir a se interessar pela área e as empresas comecem a apoiar esse público” explica Ariel.

Os desenvolvedores LGBTQA+ ganharam visibilidade na cena indie nos últimos anos, com o movimento queer de games independentes, o que incentivou a entrada de mais profissionais nesse mercado. Caique acredita que a possibilidade de trabalhar exclusivamente via internet também facilitou para que minorias em situação de risco procurassem o desenvolvimento indie, já que é um trabalho que pode ser realizado em casa, sem exposição. “Pessoas como nós se sentem mais seguras assim das discriminações do dia a dia. Por outro lado nós acabamos um pouco isolados das vistas da sociedade. Para prosperar muitas vezes nos escondemos. Isso precisa mudar”, diz.

No momento, o estúdio tem três projetos em andamento, os games “WallSlider“, um mobile em que o jogador deve explorar uma caverna e evitar seus obstáculos; “Iner“, um action RPG que coloca o gamer na pele de um mercador em busca de itens raros; e “TinyAttack“, um roguelike em que o objetivo é sobreviver a hordas de monstros e derrotar o Rei Demônio para salvar o mundo. O estúdio é versátil em estilos e temas, e pretende abordar a diversidade da mesma forma.

Jogo TinyAttack
Jogo TinyAttack

“Desses projetos o Iner incluí mais diretamente a questão da representatividade LGBTQA+. Ele é um RPG com foco na criação de itens, e possui no seu mundo habitantes que são LGBTQA+ assim como no nosso mundo” explica Erin. “O jogo não terá como foco em si a existência desses personagens, mas acreditamos que criar um mundo onde não exista nenhuma minoria ou estes sejam extremamente raros ou únicos é completamente irreal mesmo em ambientes especiais ou fantásticos. A diversidade não é uma ‘criação’ recente, ela sempre existiu na humanidade e não é porque hoje temos mais foco e nossa existência reconhecida que significa que, por exemplo, na idade média não existíamos”, completa.

Game WallSlider
Game WallSlider

O primeiro jogo a ser lançado pela TinyBird será “WallSlider”. O estúdio acaba de lançar uma campanha de financiamento coletivo pela plataforma Patreon, com o objetivo de financiar produções futuras e construir uma comunidade em torno da empresa. “O Patreon foi criado com expectativas de nos aproximar dos pedidos do público e demonstrar a eles que os escutamos, dando frequentes notícias de nosso progresso e o processo de criação” explica Ariel. “Uma empresa de grande pode correr alguns riscos em não estar a favor do público, ou ainda não manter tanto contato, pois a divulgação que fazem é grande e diferenças de vendas de um público específico não os afeta. Mas na cena indie é necessário o apoio do público, pois somos parte dele, a mesma população, somos pessoas fazendo jogos para pessoas e o apoio é o que constrói uma desenvolvedora indie”, explica.

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