Mães das invenções

Margaret Hamilton: a mãe da engenharia de software

Em novembro de 2016, a mãe da engenharia de software recebeu uma das maiores honrarias dos Estados Unidos: a medalha da liberdade das mãos de Barack Obama.

Na década de 1960, dois homens, gerentes de projetos do MIT (Massachusetts Institute of Technology), entidade recém-contratada para ajudar a NASA a levar o homem à Lua, decidiram no cara ou coroa quem iria ficar com Margaret Hamilton. Em entrevista ao site Futurism, Margaret conta que assim que soube das vagas no MIT entrou em contato e, no mesmo dia, fez entrevistas com os dois gerentes de projetos. “Eu não queria ferir os sentimentos de ninguém, então lhes disse para jogar uma moeda e veríamos qual grupo iria me contratar”, contou. Dan Lickly foi o vencedor segundo o site I Programmer. Licky já havia trabalhado no Polaris Guidance Computer e, por isso, foi nomeado líder do grupo que desenvolveria os métodos de orientação e controle do veículo que traria de volta os astronautas das missões Apollo. E, assim, numa disputa de cara ou coroa, a carreira de Margaret foi definida, bem como a história da exploração espacial mundial.

Hoje aos 80 anos, Margaret Hamilton não tinha nem 30 quando se juntou ao MIT. Casada e com uma filha pequena, ela se entregou àquela que sabia que seria uma oportunidade única na vida. “Não havia outra opção que não ser pioneira”, disse Margaret, em uma entrevista recente. Como bem ressalta a Wired, Margaret Hamilton não era para ter inventado o conceito moderno de software e ajudado o homem a chegar na Lua. Afinal, era 1960, época em que as mulheres não eram encorajadas a procurar um trabalho técnico de alta performance. Sua ideia original era trabalhar como programadora  do MIT enquanto seu marido se especializava em Direito em Harvard. Depois, seria sua vez de fazer uma pós-graduação em matemática, porém, o projeto Apollo a fez mudar de rota.

Muito embora seja vista como um ícone da luta feminista pela igualdade de gênero, especialmente em áreas dominadas por homens como são as ciências e a tecnologia, Margaret conta que sempre se sentiu “um dos caras”. Ainda que fosse minoria, ela contou que, mulheres ou homens, todos estavam dedicados às missões e trabalhavam lado a lado para “resolver os problemas desafiadores e cumprir os prazos críticos”.

“Eu estava tão envolvida no que estávamos fazendo, tecnicamente, que estava alheia ao fato de que era superada em número por homens. Concentramo-nos em nosso trabalho muito mais do que nisso de ser homem ou mulher. Era mais provável de observarmos se alguém era do primeiro ou do segundo andar, uma pessoa de hardware ou de software, ou em que área aquela pessoa era especializada, por exemplo, em relação homem-máquina, sistema de exploração, detecção e recuperação do erro, ou em uma área de aplicação específica”, conta. Se o machismo não era uma questão para Margaret, ajudar a criar o software que levaria o homem à Lua era. Mesmo a maternidade foi contornada por Margaret: Lauren, que tinha quatro anos em 1969, ano que o homem pisou na Lua, era presença constante no laboratório em que a mãe trabalhava e até ajudou Margaret a pensar em soluções para o programa.

Da matemática à engenharia de software e ao Apollo 11

Contratada pelo MIT, Margaret passou pelo projeto SAGE, no Laboratório Lincoln Labs, onde escreveu um software para o XD-1, o primeiro computador AN/FSQ-7, cujo trabalho era procurar por aeronaves “hostis” naquilo que era o início da área de segurança nacional. Com a chegada do contrato da NASA, foi chamada para participar do programa Apollo e acabou por liderar a Divisão de Engenharia de Software do Laboratório de Instrumentação do MIT (hoje Draper Labs), responsável por desenvolver o sistema de orientação e navegação da nave espacial Apollo. Com sua equipe, ela desenvolveu os blocos fundadores da área que hoje conhecemos por engenharia de software, um termo que a própria Margaret inventou. De acordo com o site da NASA,  “sua abordagem dos sistemas no desenvolvimento do software do Apollo e sua insistência em testes rigorosos foram fundamentais para o sucesso do programa Apollo”.

Crédito: MIT
Crédito: MIT

Basicamente o trabalho de Margaret e sua equipe era criar o software do computador de bordo do projeto Apollo. Era preciso desenvolver e integrar com sucesso o programa do computador de bordo do Módulo de Comando (CM), do Módulo Lunar (LM) e, ainda, o sistema compartilhado entre os dois módulos. A mais famosa foto de Margaret, em que ela, miúda, aparece ao lado de uma pilha de enormes livros, é na verdade a melhor representação do seu trabalho.  Segundo explicou ao site Futurism, sua equipe trabalhava em um software para cada uma das missões ao mesmo tempo. Os livros que aparecem na imagem histórica são uma pequena parte impressa do código-fonte do projeto Apollo, o Apollo Guidance Computer (AGC). De acordo com ela, para cada missão, havia duas listas, uma para o CM e outra para o LM. Dentro da pilha de papel da foto, duas das listas eram para o Apollo 11, um para o Apollo 11 CM e outra para o Apollo 11 LM.

Crédito: MIT
Crédito: MIT

E, de novo, de acordo com a própria NASA, o toque de Margaret se provou essencial quando em 20 de julho de 1969, minutos antes de Armstrong e Aldrin aterrissarem, o software sobrepôs o sistema de voo do computador por um sistema de radar. A ação foi anunciada como “alarme 1202”, informando a todos que o computador estava deixando de lado tarefas menos importantes para se concentrar na direção do motor de descida e fornecer informações sobre o pouso para a tripulação. Dessa forma, Armstrong e Aldrin aterrissaram na Lua, ao invés de abortar a missão devido a um problema do computador. A capacidade de priorizar tarefas foi algo que Margaret colocou em seu software. De fato, o programa de orientação da Apollo era tão robusto que nenhum bug foi encontrado em qualquer das missões Apollo, sendo posteriormente adaptado para o Skylab, o ônibus espacial, e para os primeiros sistemas digitais Fly-by-wire (ou sistema de controle por cabo elétrico, em português) de aeronaves.

Em 2003, Margaret foi homenageada pela NASA com um prêmio especial que reconhecia o valor de suas inovações no desenvolvimento do software do Apollo. O prêmio incluiu a maior retribuição financeira que a NASA já havia apresentado a qualquer indivíduo até esse ano. Após o sucesso da missão Apollo 11, Margaret Hamilton foi CEO de uma empresa co-fundada por ela, chamada Higher Order Software (HOS) de de 1976 a 1984. Em 1986, ela fundou sua própria empresa, a Hamilton Technologies Inc. com sede em Cambridge, Massachusetts.

Agora, em 2016, foi a vez do então presidente Barack Obama reconhecer suas contribuições e honrá-la com a Medalha da Liberdade. Coincidência ou não, outra mulher da tecnologia foi homenageada na ocasião: Grace Hopper, que faleceu em 1992, também foi honrada. A almirante Grace Hopper, conhecida como “Amazing Grace” e “a primeira dama do software”, esteve na vanguarda dos computadores e do desenvolvimento de programação dos anos 1940 até os anos 80. Outra pioneira.

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