Mães das invenções

As mulheres da NASA que a história não mostrou (ainda)

Na década de 1940, várias mulheres com habilidades matemáticas invejáveis foram contratadas como “computadores humanos” para ajudar a NASA e o homem a conquistar a Lua, mas ficaram de fora da história da ciência da exploração espacial

Representatividade significa representar os interesses de determinado grupo, classe social ou de um povo. E, como você deve ter ouvido falar recentemente, representatividade importa sim. Foi procurando exemplos de mulheres que pudessem emprestar seu nome para a filha que a microbiologista Nathalia Holt descobriu cientistas que foram deixadas de fora da história da exploração espacial dos Estados Unidos. Sua busca por representatividade resultou no livro “The Rise of the Rocket Girls: The Women Who Propelled Us, from Missiles to the Moon to Mars“, ainda sem tradução para o português, sobre a história de dezenas de mulheres que impulsionaram a exploração espacial e participaram de missões importantes como a ida do homem para a Lua em 1969.

Tudo começou na década de 1940, quando o JPL (sigla de Jet Propulsion Laboratory), laboratório responsável pelo desenvolvimento e manuseamento de sondas espaciais não tripuladas da NASA, gerido pela Caltech, Instituto de Tecnologia da Califórnia, recrutou “computadores humanos”. Curiosamente, segundo conta o site BrainPickings, esses “computadores humanos” eram mulheres com habilidades avançadas em matemática que passavam oito horas por dia fazendo cálculos à lápis para lançar o primeiro satélite americano no espaço ou dirigir as primeiras missões de exploração do Sistema Solar.

Até pouco tempo atrás, não se sabia, por exemplo, que quando Neil Armstrong deu seu “passo gigante para a humanidade” havia mulheres na sala de controle. Que quando as sondas da Voyager foram lançadas ao espaço suas trajetórias foram calculadas por mulheres. E que quando Carl Sagan, Ray Bradbury e Arthur C. Clarke falaram sobre Marte, o futuro da exploração espacial e de como a sonda Mariner 9 se tornaria a primeira nave espacial a orbitar um outro planeta na televisão aberta dos Estados Unidos, mulheres cujos cálculos meticulosos tinha alimentado todos esses projetos também estavam bem longe das câmeras.

Ann Dye, Gail Arnett, Shirley Clow, Mary Lawrence, Sally Platt, Janez Lawson, Patsy Nyeholt, Macie Roberts, Patty Bandy, Glee Wright, Janet Chandler, Marie Crowley, Rachel Sarason, and Elaine Chappell. Second row: Isabel deWaard, Pat Beveridge, Jean O’Neill, Olga Sampias, Leontine Wilson, Thais Szabados, Coleen Veeck, Barbara Lewis, Patsy Riddell, Phyllis Buwalda, Shelley Sonleitner, Ginny Swanson, Jean Hinton, e Nancy Schirmer são alguns dos nomes esquecidos pelo Estados Unidos ao contar oficialmente seus avanços no descobrimento do espaço. Aos poucos, porém, suas histórias começam a aparecer. Isso porque além da distância dos holofotes, essas mulheres que trabalharam como “computadores humanos” para a NASA vivenciaram um conflito que se estende até hoje: como lidar com as ambições profissionais e as responsabilidades enquanto donas de casa e mães? Nathalia lembra que nessa época elas eram chamadas de “querida” por seus colegas do sexo masculino, que eram intitulados “engenheiros, e que recebiam mais elogios por seus cortes de cabelo à moda Bette Davis do que por seus cálculos magistrais.

Ann Dye, Gail Arnett, Shirley Clow, Mary Lawrence, Sally Platt, Janez Lawson, Patsy Nyeholt, Macie Roberts, Patty Bandy, Glee Wright, Janet Chandler, Marie Crowley, Rachel Sarason, and Elaine Chappell. Second row: Isabel deWaard, Pat Beveridge, Jean O’Neil, Olga Sampias, Leontine Wilson, Thais Szabados, Coleen Veeck, Barbara Lewis, Patsy Riddell, Phyllis Buwalda, Shelley Sonleitner, Ginny Swanson, Jean Hinton, e Nancy Schirmer. Fonte: Divulgação.
Ann Dye, Gail Arnett, Shirley Clow, Mary Lawrence, Sally Platt, Janez Lawson, Patsy Nyeholt, Macie Roberts, Patty Bandy, Glee Wright, Janet Chandler, Marie Crowley, Rachel Sarason, and Elaine Chappell. Second row: Isabel deWaard, Pat Beveridge, Jean O’Neil, Olga Sampias, Leontine Wilson, Thais Szabados, Coleen Veeck, Barbara Lewis, Patsy Riddell, Phyllis Buwalda, Shelley Sonleitner, Ginny Swanson, Jean Hinton, e Nancy Schirmer. Fonte: Divulgação.

Além de Eleanor Francis Helin, cientista que emprestou seu nome à filha de Nathalia e que também trabalhou no JPL, um nome importante dessa história é Macie Roberts, que era 20 anos mais velha do que suas colegas e que tinha aprendido por conta tudo que sabia de ciência espacial. “Com Macie guiando, um grupo de jovem mulheres estava prestes a deixar a vida que se esperava delas. Cada uma delas deixaria de ser uma raridade na escola, aquela menina que se destaca em aulas de cálculo e química, para aderir a um grupo exclusivo de mulheres no JPL. As carreiras que estavam prestes a se lançar seriam diferente de qualquer outra”, escreveu.

Nathalia conta que até houve um reconhecimento pela NASA no passado. Na época da celebração do cinquentenário do direito ao voto, um movimento maciço chamado Greve das Mulheres para a Igualdade eclodiu nos Estados Unidos pedindo por mais direitos para as mulheres que já eram maioria e “donas de casas escravizadas”. No JPL, os títulos das mulheres foram mudados: conhecidas como “computadores humanos”, elas passaram a ser chamadas oficialmente de engenheiras. Foi uma avanço tão grande quanto o homem pisando na Lua.

Mulheres e negras

Esse capítulo dos “computadores humanos” na NASA tem um aspecto ainda mais interessante para a história da ciência espacial: várias delas eram também negras. Em 2017, chega aos cinemas o filme de Theodore Melfi, “Hidden Figures”. Baseado no livro de não-ficção de mesmo nome, de Margot Lee Shetterly, o filme vai contar a história das mulheres negras que ajudaram o Estados Unidos a ganhar a corrida espacial. A obra segue a história de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monae), mulheres cientistas que foram cruciais para o início da NASA, o Projeto Mercury e o desembarque do homem na Lua em 1969.

Um texto do Jalopnik sobre o filme e o livro ressalta que mesmo dentro da NASA elas eram pouco reconhecidas. Foram segregadas por anos: até a década de 1950 alguns funcionários brancos afirmavam que nem sequer sabiam que os empregados negros estavam fazendo os mesmos trabalhos que eles, pois ficavam em outra parte do escritório.

Melba Roy era líder do grupo de matemáticos da NASA em 1964. Fonte: Divulgação/NASA.
Melba Roy era líder do grupo de matemáticos da NASA em 1964. Fonte: Divulgação/NASA.

Já o The Guardian lembra que muito embora parte dessa geração de cientistas negras tenham sido reconhecidas — em 2015, Katherine Johnson foi premiada com a maior honraria civil dos EUA, a Medalha Presidencial da Liberdade pelo seu trabalho na NASA, que incluiu cálculos que ajudaram o pouso na Lua — o fato é que grande parte da equipe era composta por mulheres, sendo várias delas negras, e que pouco se sabe sobre isso ainda. Essa ausência não é por acaso. “Durante muito tempo, os afro-americanos não eram autorizados a ler e escrever. Esquecemo-nos, mas não foi há muito tempo. As mulheres foram impedidas de estudar em muitas faculdades. Se você não é capaz de ler e escrever então você não vai ser capaz de contar sua própria história. Não houve massa crítica de mulheres, minorias, seja qual for, e eu acho que isso é algo que está mudando agora”, disse Margot Lee Shetterly.

Agora, a história dessas mulheres, brancas e negras, começa a ser contada para que as próximas gerações possam não apenas conhecê-las, mas também se verem representadas e, quem sabe, ajudar o ser humano, e não apenas o homem, a explorar ainda mais o espaço. A primeira mulher a ir ao espaço, Vladimirovna Tereshkov, não era russa por acaso também.

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