Saúde

Novas técnicas de edição de genes poderão salvar milhões de vidas

CRISPR-CAS9 pode revolucionar a medicina, embora também traga dilemas éticos para o campo da edição de genes

Embriões alterados, doenças curadas com edição de genes e até atletas modificados geneticamente para ter uma melhor performance. O que parece o roteiro de um filme de ficção científica pode estar bem próximo de acontecer. Tudo graças a uma nova tecnologia de edição de genes, chamada de CRISPR-CAS 9, que promete revolucionar a medicina nos próximos anos.

Basicamente, a técnica permite que cientistas façam microcirurgias nos genes, modificando uma sequência de DNA em um local específico no cromossomo. Por ser barata e eficiente, a técnica é promissora e em breve será testada em humanos.

A grande vantagem do CRISPR comparado a outros métodos de edição genética é a precisão. Editar e deletar partes específicas de DNA pode ajudar a combater doenças como fibrose cística ou mesmo HIV. A esperança é tanta que empresas como a Editas, especializada na técnica, receberam milhões de dólares de investimento. No caso da Editas, são US$ 200 milhões em caixa, suficientes para durar por dois anos. Outras empresas, como a Intellia Therapeutics e a CRISPR Therapeutics, também são especializadas no CRISPR-CAS 9.

Além disso, até o faça-você-mesmo está sendo incentivado com a nova tecnologia. Nos Estados Unidos, há um biofísico que vende o pacote básico para edição de DNA por apenas US$ 120.

Depois de muito investimento e debate, o primeiro teste clínico com humanos foi aprovado pelo governo americano. A ideia é utilizar a tecnologia para o tratamento do câncer e definir se o CRISPR é efetivo ou não na imunoterapia. Pesquisadores vão remover as células T de 18 pacientes com diferentes tipos de câncer e fazer três diferentes tipos de edição de CRISPR neles. A primeira edição vai inserir um gene para uma proteína que tem como objetivo detectar as células cancerígenas e instruir as células T a atacá-las. A segunda edição remove uma célula T natural que poderia interferir no processo. Já a última remove o gene para uma proteína que identifica as células T como células imunes e previne que as células cancerígenas as combatam. O teste será conduzido pela Universidade da Pensilvânia e deve ocorrer até o fim do ano.

Outras técnicas de edição de genes

A Cellectis, empresa francesa hoje radicada nos Estados Unidos, vem avançado no que o MIT chamou de “engenharia da imunidade” graças ao método de edição de genes TALENs, que faz cortes e correções no DNA em céluas vivas.

Recentemente, em um tratamento desenvolvido desde 2011, a Cellectis encontrou uma forma de controlar as células T ou Linfócitos T, as células assassinas que fazem parte do nosso sistema imunológico. Com essa técnica, a empresa mostrou que poderia tomar o controle das células T e, usando um vírus, adicionar novas instruções ao DNA para que fossem apontadas as células que causam problemas e levam a um quadro de leucemia. A técnica tem sido testada em mais de 300 pacientes, inclusive com resultados de remissão completa.

Cientistas acreditam que o avanço da técnica pode auxiliar no tratamento de doenças genéticas
Cientistas acreditam que o avanço da técnica pode auxiliar no tratamento de doenças genéticas

Outro projeto da empresa é fazer uma edição de gene que resultaria em um tratamento com células T universais feitas a partir do sangue de doares. Nesse caso, a ideia é adicionar o novo DNA ao paciente em tratamento, mas também usar a edição de gene para eliminar o receptor de células T, que é quem percebe uma molécula estrangeira. Dessa forma, a empresa ajudaria pacientes que tem poucas células T com linfócitos T de terceiros para o tratamento.

A Cellectis, que já conta com investimento da Pfizer e da Servier, é um exemplo das recentes descobertas envolvendo o controle e a manipulação do sistema imunológico, que pode nos levar a novos tratamentos não só do câncer, mas do HIV e de outras doenças autoimune como reumatoide e esclerose múltipla.

Segundo Philip Sharp, um biólogo do Instituto Koch do MIT for Integrative Cancer Research e ganhador do Prêmio Nobel de 1993, há cerca de 40 anos se sabe que existe uma conversa entre as células tumorais e o sistema imunológico. “É a essa conversa que estamos tentando nos juntar, a fim de ter efeito terapêutico. Nós ainda estamos no nível de uma criança de cinco anos de idade. Sabemos que existem substantivos e que existem verbos. Mas a diversidade de vocabulário ainda está sendo mapeada”, disse a uma publicação do MIT.

Outro nome desse campo é Wendell Lim, biólogo a frente da startup Cell Design Labs, que explora um terreno que ele mesmo chama de “Imunologia Sintética”. Recentemente, ele produziu “células T do futuro”, ou seja, células cujo comportamento de buscar e matar o alvo só é disparado se uma droga específica for acrescentada, em uma espécie de controle remoto. Outro projeto de Lim é criar uma verificação de dois passos nesse processo: a célula T só mata a célula cancerígena se encontrar dois marcadores diferentes. Por enquanto, o pesquisador está tentando vencer o comportamento de fogo amigo dessas células em teste, para então testar em humanos.

Empresas que trabalham com a tecnologia CRISPR-CAS9 tem recebido milhões de dólares em investimento
Empresas que trabalham com a tecnologia CRISPR-CAS9 tem recebido milhões de dólares em investimento

A indústria de tecnologia também está de olho nessa área, segundo relatório do MIT. O Google, por exemplo, está interessado em novas técnicas de pesquisa das impressões digitais das células coletadas em biópsias de tumores. Dessa forma, o Google poderia criar um enorme banco de dados e estudar o que as células do sistema imunológico estão realmente fazendo dentro de um tumor, encontrando novas pistas sobre como influenciá-lo. Já o Facebook está desenvolvendo um software para interpretar a sequência de DNA no câncer de um paciente e prever a resposta das células T.

As polêmicas da edição de genes

A ciência também tem polêmicas dignas de ficção: a tecnologia CRISPR-CAS 9 poderia ser utilizada para modificar embriões humanos. A revista Nature já se manifestou sobre os perigos desse tipo de ação. A publicação afirma que a alteração do código genético do embrião pode danificar de maneira permanente os trechos do gene e que isso poderia criar problemas até para as futuras gerações daquele embriões.

Outro problema ético trazido pela facilidade da nova técnica é o risco de alguém desenvolver alguma cura para uma doença, distribuir para milhares de pessoas e depois descobrir efeitos colaterais no gene. A polêmica não para por aí: embora se discuta apenas as vantagens da edição de genes, se a técnica for utilizada com más intenções, alguém poderia alterar o vírus da gripe, por exemplo, tornando-o mais forte.

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