Inovação Tecnológica

O dinheiro virtual chegou na Índia e está mudando o país

Baseada em dinheiro físico e pouco bancarizada, a economia da Índia entrou em um breve colapso com a desmonetização, mas já ressurge com ajuda do dinheiro digital.

Nove de novembro de 2016. Com o objetivo de reduzir a corrupção e acabar com o dinheiro ilegal que circula no mercado negro na Índia, o primeiro ministro do país decidiu pôr fim às notas de 500 e de 1.000 rúpias indianas. A medida, um tanto inesperada e radical, criou o verdadeiro caos: 86% do dinheiro da Índia circula nessas duas notas e, por lá, muitas pessoas não têm, sequer, conta em banco. Ou seja, suas economias quase foram para o ralo.

Com a desmonetização abrupta, teve quem entrou em desespero: segundo o Huffington Post, ao menos 47 pessoas morreram após receberem a notícia. Os bancos e caixas automáticos formaram filas gigantescas por dias enquanto famílias inteiras, com dinheiro guardado para casamentos e tratamentos médico, ficavam praticamente sem nada. De acordo com uma estimativa publicada pela Economist, a medida pode reduzir o crescimento do PIB da Índia em dois pontos percentuais. Comerciantes de rua, operários, agricultores e milhões de outras pessoas que dependem fortemente do dinheiro em espécie devem ser os mais atingidos.

A Índia, diferente de outros países, não é muito bancarizado. Por lá, as pessoas preferem guardar suas economias no velho e bom colchão ou coisa que o valha. Com a ação inesperada, o governo não só tenta combater a economia paralela, muito praticada entre os mais ricos, como empurra os cidadãos para a moeda digital. E aqui não estamos falando de bitcoin ou blockchain, mas de meios de pagamentos móveis em smartphones e carteiras digitais, por exemplo. De acordo com a Bloomberg, citada pela MIT Technology Review, o governo prometeu até dar descontos em transações digitais, incluindo compra de apólices de seguro, de bilhetes de trem e gasolina.

Dinheiro pula o plástico e vai direto ao virtual

Nesse cenário, as empresas que trabalham com pagamentos digitais se deram bem: a Ola, uma espécie de Uber na Índia, viu sua demanda aumentar em 15 vezes nas 15 horas que se seguiram à desmonetização segundo artigo do Quartz. A Paytm, que trabalha com dinheiro virtual, também teve picos de usuário nos momentos seguintes ao anúncio estrondoso do governo indiano. Segundo artigo do Backchannel, antes do episódio da desmonetização, a Paytm tinha um negócio estável, que processava entre 2,5 e 3 milhões de transações por dia. Em dezembro, o uso do app quase dobrou: 6 milhões de transações por dia são comuns, enquanto 5 milhões é considerado um dia ruim.

paytm

A Paytm já é a maior plataforma de tecnologia financeira da Índia, tendo arrecadado US$ 890 milhões desde que foi lançada há seis anos. Mas agora a empresa está sendo beneficiada pela desmonetização na medida em que as pessoas foram obrigadas a repensar como funciona o sistema de pagamento da Índia, inclusive o cidadão comum. “As pessoas proativamente estão explorando outras formas de liquidar seus pagamentos além do dinheiro. Agora as pessoas perceberam que não precisam empilhar dinheiro, porque os comerciantes estão começando a aceitar outras formas de pagamento”, disse Deepak Abbot, vice-presidente sênior da Paytm. Com tantas pessoas fazendo fila nos bancos todos os dias, limite de retiradas por dia, além da burocracia para abrir uma conta bancária tradicional ou uma linha de crédito, as pessoas estão preferindo ir direto para o pagamento móvel, que é mais fácil de entender.

De acordo com um relatório da Hindu Business Line, cerca de 233 milhões de pessoas não bancarizadas na Índia estão pulando o plástico dos cartões e indo direto para as transações digitais. “O dinheiro perdeu sua credibilidade e os pagamentos não são mais percebidos da mesma maneira”, diz Upasana Taku, cofundador da carteira MobiKwik, que relatou um aumento de 40% nas transferências e um aumento de 7000% nas transferências bancárias desde a desmonetização. “Há um caos no momento, mas também o alívio de que a Índia agora será uma economia melhorada”, diz. Taku vê a transição para uma sociedade sem dinheiro como iminente, mesmo que a maior economia do Sul da Ásia tenha descoberto o setor bancário só agora no século 21. O governo, no entanto, parecia estar se preparando para isso.

Ao contrário dos países ocidentais, a Índia não tem um sistema de finanças pessoais. O país está construindo as regras para e-pagamentos e carteiras móveis em conjunto com uma economia mais formalizada. Além disso, antes da desmonetização, o governo indiano lançou um plano nacional para fornecer conexões de banda larga em áreas rurais para adicionar mais 300 milhões de usuários da internet até 2020. “Como país, temos mais alfabetização digital do que alfabetização”, explica Ritesh Malik, um investidor anjo baseado em Delhi ao BackChannel.

Bangalore city scape

Bangalore, o exemplo

De fato, a atitude foi um empurrão em direção à tecnologia. Tanto que no meio do caos uma parcela bem específica da população escapou: os jovens mais ligados em inovações e que já viviam sem dinheiro, principalmente em Bangalore, o “Vale do Silício” da Índia. O Quartz conversou com alguns jovens de Bangalore, que relataram não terem sentido os efeitos das mudanças. “Eu odeio filas, não fico em uma de jeito nenhum. E para que eu preciso de dinheiro, afinal?”, disse Niti Shree, uma consultora de marketing para startups. “Faço todas minhas transações online. Mesmo num dia comum, eu tenho apenas 100 ou 200 rúpias em minha carteira. Então não tenho nenhum dinheiro para ir tirar no banco”, comentou.

kirananow

De fato é algo cultural: Bangalore é casa de 30% das startups de tecnologia da Índia e está no top 15 de cidades mais tecnológicas do mundo. Muitas das inovações lançadas no país são testadas primeiro na cidade. A Amazon, por exemplo, testou seu sistema de delivery de supermercado, a KiranaNow, apenas em Bangalore. A Ola também lançou lá seu sistema de viagens de bicicletas. É nesse contexto que empresas como a Infosys, a segunda maior de TI na região, já paga mais de 25 mil funcionários apenas com dinheiro virtual.

Compartilhe esse artigo

Tópicos relacionados

Inovação Tecnológica

Leia também