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O hacktivismo é o antídoto para a apatia?

hacktivismo

Enquanto a internet e as redes sociais desempenharem um papel cada vez mais importante no nosso dia a dia, jovens gênios da computação e equipes de hackers continuarão a utilizar seu conhecimento de tecnologia para abalar sistemas políticos, corrigir o que consideram errado e promover o bem social.

Imagine acordar de manhã e descobrir que todos os caixas automáticos da cidade estão inativos. Todos os registros bancários foram apagados e os mercados globais estão em completa desordem. Líderes mundiais, organizações internacionais e o chamado grupo dos um por cento estão misturados.

Livres das algemas das dívidas, todos são iguais financeiramente.

Essa revolução global e suas consequências, retratadas com realismo e estilo em Mr Robot da USA Network, é um exemplo extremo do que pode acontecer quando hackers com ideias de Robin Hood transformam-se em “O Homem”.

Embora o filme seja pura ficção, sua trama utiliza exemplos do hacktivismo na vida real realizados por grupos como Anonymous, LulzSec e RedHack.

O hacktivismo é definido como “o ato de invadir ou interromper um sistema de computador com motivação política ou social”. Ele enfatiza o ativismo e os hacktivistas são pessoas com grande conhecimento de tecnologia que desejam mudar o mundo, para melhor ou para pior.

“Os hacktivistas querem demonstrar sua insatisfação com o governo, uma empresa ou algum tipo de evento e utilizam a pirataria para isso”, explicou Bruce Snell, diretor de cibersegurança e privacidade da Intel. “Houve, por exemplo, muitos eventos hacktivistas em torno da situação entre a Ucrânia e a Rússia, muitos deles durante a Primavera Árabe.”

Hoje, as pessoas passam grande parte de suas vidas on-line, desde o uso de serviços bancários digitais, até a divulgação de selfies nas redes sociais. Levar o ativismo para a internet, disse Snell, é apenas parte dessa evolução natural. Ele vê paralelos entre o hacktivismo e os protestos tradicionais, nos quais as pessoas pacificamente ocupam lugares ou fazem passeatas com cartazes.

O ativismo torna-se digital

Snell disse que há uma crescente cultura de usar as redes sociais como forma de protesto, lembrando como as pessoas frequentemente recorrem ao Facebook ou Twitter para revelar suas opiniões políticas por meio de artigos, postagens ou memes.

“É um meio para o qual um número maior de pessoas converge e utiliza para postar suas mensagens”, observou Snell. “Quanto ao hacktivismo, esses grupos conseguem alcançar muito mais pessoas do que conseguiriam carregando cartazes.”

A migração do ativismo para a internet significa que os hacktivistas também podem dar suporte às iniciativas das ruas — pensem nas passeatas Ocupe Wall Street — com uma convocação on-line, disse Matthew Rosenquist, estrategista e evangelista da Intel.

Ele disse que os hacktivistas divulgarão notícias sobre uma causa para aumentar a presença física em um protesto. Em outros casos, os hacktivistas utilizam sua perícia para contornar os firewalls virtuais de um país e divulgar informações fora de suas fronteiras, conseguindo chamar ainda mais a atenção para uma causa.

“Os ativistas já existiam muito antes de o mundo digital expandir-se e afetar nossas vidas”, disse Rosenquist. À medida que mais pessoas consomem notícias on-line, a internet torna-se uma plataforma mais importante. “Os hacktivistas obtêm um excelente retorno do investimento que fazem dos seus esforços.”

Embora a internet possa ser o alvo ideal para os hacktivistas, seus ataques têm muitas formas. Alguns hacktivistas apoderam-se da conta de uma celebridade no Twitter e divulgam opiniões contrárias ao que aquela celebridade pensa. Outras, como os Guardiões da Paz, que praticaram o ataque à Sony Pictures em 2014, roubam informações prejudiciais ou embaraçosas e as expõem para o mundo.

Um método mais comum é a desfiguração ou tomada de controle de um site na Web, acrescentou Rosenquist. Esta categoria de pirataria pode envolver qualquer coisa, desde um ataque de negação de serviço (DDoS, na sigla em inglês), que utiliza diversos computadores para inundar um website ou um sistema até ele sair do ar, até simplesmente mudar o texto ou as imagens de um website para apoiar uma causa específica.

Os hacktivistas podem também redirecionar URLs de modo que uma pessoa que esteja tentando fazer compras no site de uma mega loja, por exemplo, caia em uma página sobre os malefícios dos grandes varejistas.

hacktivismo e protestos

Rosenquist explicou que, embora os hacktivistas tendam a ser motivados pela “síndrome do que precisa ser feito”, e não por ganhos financeiros, alguma parte do hacktivismo pode incluir o roubo ou a destruição de recursos.

“Hipoteticamente, os hacktivistas que desejam salvar as baleias podem localizar empresas que praticam a pesca de baleias e destruir sua cadeia de suprimentos ou interferir na navegação dos barcos, com o objetivo de impedir que realizem suas atividades”, completou. “Depois, divulgarão seu ataque para incentivar a sociedade a mudar de opinião sobre a questão.”

No caso do ataque da fsociety em Mr Robot, o golpe exigia um roubo como no mundo real (cooptação de uma minivan, cópia das informações do crachá de um funcionário) um raspberry pi (pequeno computador programável que foi acoplado a um termostato para superaquecer e provocar um incêndio terrível) e uma pitada de mágica feita para chamar a atenção da TV para derrubar um conglomerado multinacional, E(vil) Corp.

A evolução do hacktivismo

A ampla gama de ataques faz sentido se levarmos em conta a imensa diversidade dos próprios hacktivistas.

“Existem hoje milhares de grupos de hacktivistas em todo o mundo apoiando praticamente todas as causas imagináveis”, escreveu Dorothy Denning em “The Rise of Activism” (A ascenção do ativismo).

Ela explicou que alguns grupos associam-se a um determinado país, governo ou outra entidade política, outros não expressam qualquer tipo de fidelidade. A forma como esses grupos operam, contudo, vem mudando com o tempo.

Rosenquist disse que os primeiros ativistas organizavam-se principalmente em grupos pequenos e fechados, mas que hoje eles geralmente trabalham em confederações grandes e pouco conectadas, cujos membros atuam de forma independente e anônima para o caso de alguém ser pego.

Os hacktivistas não precisam nem ter grande conhecimento de tecnologia. Snell disse que grupos como o Anonymous podem fornecer ferramentas como o Canhão de íons de órbita alta para os membros menos aptos (conhecidos como garotada dos scripts) antes de lhes designar um alvo para atacar.

máscara do hactivismo

Os grupos de hacktivistas mais novos também tendem a ser mais preocupados com marcas do que seus antecessores.

“Quando pensamos em Robin Hood, imediatamente imaginamos alguém que rouba dos ricos para dar aos pobres. Tecnicamente um criminoso, mas amplamente considerado um herói justo”, disse Rosenquist. “Expectativas preconcebidas podem gerar credibilidade, empatia e apoio do público.”

Alguns grupos hacktivistas esforçam-se por assumir uma posição semelhante, disse Rosenquist, criando uma reputação por meio de sua identidade.

Provavelmente o grupo hacktivista mais conhecido, Anonymous, faz exatamente isso: quando as pessoas veem máscaras de Guy Fawkes ou uma ilustração de um homem com um ponto de interrogação no lugar da cabeça, elas sabem exatamente quem executou o ataque. A opinião da pessoa a respeito do Anonymous dirá se vale a pena apoiar a causa.

Em Mr. Robot, os hackers também usam uma máscara antes de deixar mensagens para o público. No filme, os apoiadores saem em passeata por Manhattan usando essas máscaras em demonstração de solidariedade pela causa do grupo de supressão de dívidas.

Se o hacktivismo é uma coisa “boa” ou “ruim”, um “protesto político” ou um “crime” é uma questão de opinião, mas uma coisa é certa: ele só vai ficar mais predominante.

“Sempre haverá pessoas aborrecidas com o sistema”, comentou Snell. “Eu esperaria ver os incidentes de hacktivismo aumentarem nos próximos anos, à medida que realizarmos cada vez mais de nossas atividades diárias on-line.”

Rosenquist concorda que esses fatores desempenharão um papel significativo na ajuda para que o hacktivismo ganhe força, especialmente agora que a mídia está prestando atenção nas violações de dados de grandes proporções.

“Esses ativistas usarão a tecnologia digital e a mída a seu favor”, explicou. “Quando o mundo mudar para o formato digital, esse será o campo de ação.”

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