Inovação Tecnológica

Polos tecnológicos do Brasil: o benefício da densidade para São Paulo

Aos poucos, Brasil ganha os seus próprios Vales do Silício. embora não possam ser comparados ao exemplo norte-americano, têm suas próprias características e buscam o desenvolvimento tecnológico. São Paulo é um deles.

Desde que nossa vida começou a girar melhor com ajuda da tecnologia e conta uma forte presença de serviços e produtos criados nos Estados Unidos nos perguntamos: teremos um Vale do Silício brasileiro? Ou vários? A resposta mais sincera é não, mas isso não necessariamente é algo ruim. Porque teremos nossos próprios polos tecnológicos. A região ensolarada da Califórnia só é o que é porque reuniu uma série de pessoas na hora e no momento certo da história. Estudiosos no assunto como Leslie Berlin, que escreveu sobre o tema no BlackChannel, afirmam que o Vale do Silício é fruto de uma combinação única: pesquisadores inovadores que se mudaram para lá, impulso educacional oferecido pela Universidade de Stanford, aspectos culturais que se desenvolveram na década de 1960 e um número muito alto de capital privado ao longo dos anos. Coisas que não se repetem facilmente, por mais que a história possa ser cíclica.

Hoje, o Vale do Silício se mantém inovador pela tradição, mas também pela grande aglomeração de empresas tecnológicas, que atraem os maiores talentos, e pela quantidade de imigrantes que trazem seus conhecimentos mais variados. Se você viu nessa última descrição semelhança com um local bastante conhecido no Brasil, não está equivocado. Não é por acaso que São Paulo está se tornando um dos principais polos tecnológicos do país: a maior cidade é sede de inúmeros escritórios das maiores empresas de tecnologia do mundo, tem algumas das melhores universidades e é o principal destino de imigração, seja de brasileiros de outros estados, seja de estrangeiros. Ou seja, pode ser que não tenhamos um Vale do Silício nacional igual ao norte-americano, mas algo com potencial equivalente.

Diretor da Cubo, espaço criado pelo Itaú Unibanco em parceria com a Redpoint e.ventures, Flavio Pripas conta que finalmente São Paulo tem a característica necessária de uma cidade inovadora: a densidade. Ele explica: “o Cubo mesmo veio para preencher uma lacuna. Se você acompanha a evolução desse ecossistema de empreendedorismo, de 2000, 2005, 2010 a 2015, percebe que o ambiente todo de suporte ao empreendedor, de suporte à tecnologia, de suporte a quem está tentando criar um novo modelo de negócios está amadurecendo muito rápido. Antes do Cubo ou mesmo do Google Campus [que inaugurou em junho de 2016], faltava algo no mercado. Estudos sobre ambientes de inovação dizem que é preciso cinco variáveis em uma cidade para que ela possa florescer: acesso a talento, acesso a capital, cultura empreendedora, ambiente regulatório e densidade. Densidade significa que por mais que o mundo seja digital é preciso um local físico [ou vários] onde as pessoas se encontram e circulam para falar de tecnologia, inovação, novos modelos de negócio, formas de trabalhar e como mudar o mundo. A partir de 2015, com o Cubo, e em 2016 com Google Campus, além de outras iniciativas que estão surgindo agora, é que podemos dizer que preenchem essa lacuna”.

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O Cubo é um espaço na Vila Olímpia com 5.000m², sendo três andares de coworking, um andar para workshops e treinamentos, anfiteatro para 130 pessoas, espaço para café e terraço com lounge para interação e eventos. Segundo Pripas, circulam todos os dias pelo espaço 600 pessoas, sendo que 250 trabalham lá dentro e que cerca de quatro eventos acontecem todos os dias. “Ao preencher essa lacuna de densidade estamos contribuindo para São Paulo se destaca cada vez mais como um polo de tecnologia”, afirma.

Pripas conta que os brasileiros estão começando a criar suas próprias tecnologias, muito embora a fama de que mais copiamos o que vem de fora seja um fato que não dá para negar. “A gente muito mais aplica tecnologia para resolver problemas do que cria, só que nos últimos anos vemos exemplos pipocando aqui com coisas novas. Mas é um processo, o que aconteceu no Vale do Silício foi uma história que foi desenvolvida em 50 anos, aqui no Brasil temos 10 ou 15 anos nessa trajetória, leva tempo até que a engrenagem, a máquina, funcione”, acredita. No Cubo existem exemplos de empresas inovando em banco de dados para Big Data, outras criando projetos de processamento de linguagem natural, e até empresa que deixaram de ser startups exportando solução de criptografia para outros países.

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Para o executivo, já não existe negócio que não precisa de tecnologia. “A tecnologia é a base de tudo e é a única coisa que existe no mundo que pode dar escala à resolução de problemas. Qualquer problema que exista, a solução só escala por meio da tecnologia, isso já faz parte da nossa vida. Um negócio, por mais simples que seja, se não tiver tecnologia o dono perde o controle, pode ser uma venda na esquina ou uma padaria. Já é um fato. Talvez não esteja disseminado no país inteiro, mas já estamos nesse momento”, explica.

Além da densidade, na opinião de Pripas, outro obstáculo para São Paulo e o Brasil como um todo é o ambiente regulatório, o tal Custo Brasil de se ter uma empresa. o fato de que a pesquisa acadêmicas ainda está distante do mercado é outro desafio. “Enquanto nos Estados Unidos a pesquisa é voltada para colocar produto no mercado, aqui ela serve para fazer artigo. Esse é um outro traço cultural que está começando a mudar agora”, explica. Segundo ele, mesmo o contato do Cubo com universidade, que é mais focado em levar talentos para as startups, ainda é pequeno se comparada à aproximação entre academia e mercado que é possível.

Que mais que São Paulo tem?

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups, o estado de São Paulo é o que mais tem empresas em fase inicial: são mais de 1,2 mil. Além de iniciativas privadas como do Cubo e do próprio Google Campus, a prefeitura tem criado ferramentas de fomento à inovação. Lançado em agosto de 2014, a TechSampa é uma política da Prefeitura que tenta estimular a inovação. O projeto promove um programa de residentes que seleciona dez startups de mobilidade urbana para desenvolver suas ideias no espaço de coworking do MobiLab por três meses.

Outro elemento importante para a cidade de São Paulo são os Fab Labs. A Prefeitura iniciou o programa Fab Lab Livre SP em 2015, uma iniciativa que dá acesso a tecnologias avançadas para a população. São 12 espaços espalhados pela cidade em que qualquer pessoa agenda um horário para utilizar os equipamentos disponíveis. Impressoras 3D, cortadoras a laser, computadores com software de desenho digital, além de equipamentos e ferramentas de eletrônica, robótica, marcenaria e mecânica são alguns dos materiais disponíveis nesses Fab Labs públicos.

O estado de São Paulo também abriga um dos principais locais de desenvolvimento da aeronáutica no Brasil, o Parque Tecnológico de São José dos Campos. É lá que estão os centros de desenvolvimento de empresas como Embraer, Boing, Airbus, Ericsson e Vale, com foco nos mercados de defesa e aeroespacial. O Parque Tecnológico abriga mais de 300 empresas e já arrecadou mais de R$ 1,89 bilhão em investimentos públicos e privados. Além da aeronáutica, também saem de lá negócios para os setores, automotivo, energético, saúde, têxtil, tecnologia da informação e comunicação, e transporte.

Mais perto da capital São Paulo e também contribuindo para essa densidade que Pripas pontua, está Campinas. A presença de instituições como a Unicamp, a PUC-Campinas, o Mackenzie, a Facamp e a Unip fazem da cidade um dos mais reconhecidos polos acadêmicos do Brasil e de toda a América Latina. Há alguns anos a revista Wired identificou Campinas como um dos núcleos de tecnologia de ponta de todo o Hemisfério Sul. Boa parte do vigor tecnológico da cidade deve-se à existência da Ciatec (Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas), uma empresa municipal de economia mista. Recentemente, Campinas também se tornou referência nacional nos negócio dos biocombustíveis com o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), capitaneado pelo governo federal.

Apesar de estarmos em um mundo cada vez mais digital, essa densidade que exige presença física e que vem beneficiando São Paulo, a cidade principalmente, é essencial. “O Vale do Silício só é o Vale do Silício porque esses encontros acontecem todos os dias em todos os momentos, seja no café, na universidade, na rua, ou em qualquer lugar. Isso realmente faz a diferença. Por mais que o mundo seja digital, nada substitui o encontro cara a cara, o encontro entre pessoas”, defende Flavio Priras.

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