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Vine: mais do que uma rede social, uma comunidade que deixa de existir

Anúncio do Twitter de que o Vine seria descontinuado movimentou a internet e levantou questões sobre o motivo da decisão e sobre qual o seu principal legado

Em fevereiro de 2016, eu estava em Barcelona, na Espanha, para acompanhar a Mobile World Congress, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo. Em um determinado dia, enquanto aguardava um grupo de colegas jornalistas em um hotel para, juntos, seguirmos ao evento, percebi um grupo de umas cinco jovens do lado de fora. Fazia um frio invernal, mas elas pareciam não se importar, pois esperavam alguém. Esse alguém, que eu desconhecia, era Logan Paul. Talvez você também não conheça o hoje ator, mas não é por acaso: Logan Paul é uma celebridade que, como várias outras, nasceu no Vine, rede social de vídeos de seis segundos que o Twitter decidiu recentemente encerrar — talvez, vender.

Com quase 10 milhões de seguidores em seu perfil, Logan Paul tem quatro bilhões de loops. Loops indicam a quantidade de vezes que um vídeo foi visto. Por aqui, o Vine não pegou como em outros países. Ainda assim, é impossível negar que tenha tido sim certo sucesso. Antes um Viner, Logan Paul é mais um dos vários órfãos da rede social e também um dos seus algozes, criativos que migraram para a concorrência: Instagram, Snapchat, Facebook e YouTube. Mas, afinal, por que é importante pensar sobre o fim do Vine?

Para além das questões mercadológicas, isto é, da dificuldade do Twitter de gerir seu próprio negócio e também o Vine, que foi comprado em 2012, é preciso falar da concorrência e de como a inovação tecnológica está cada vez mais veloz. E, claro, do quanto essas plataformas, ditas redes sociais, dependem de seus usuários, em especial, desses chamados criativos que se tornam influenciadores primeiro no mundo digital e depois no real.

Inicialmente uma rede social, o Vine se consagrou mesmo como um formato: seis segundos de vídeo e nada mais. No seu começo, quando vídeos não eram tão móveis quanto textos e fotos e o YouTube reinava sozinho nos navegadores, o formato diferente foi suficiente para lhe garantir sucesso. No entanto, com a concorrência lançando recursos semelhantes ou melhores para bases de usuários tão grandes quanto ou maiores do que o Vine, a plataforma falhou em não se reinventar. Erro que, sabemos, não é novidade quando lembramos que o Twitter passou anos não querendo ir além dos 140 caracteres.

E não foi um concorrente que começou a roubar suas celebridades, foram vários: YouTube passou a dar mais atenção aos criativos, criando YouTube Spaces em vários lugares do mundo e lançando novas ferramentas; enquanto isso, o Instagram começava sua jornada pelos vídeos primeiro batendo de frente com o Vine, inclusive com o app Boomerang e, mais recentemente, com o Stories, outro concorrente, o Snapchat. Isso sem falar no Facebook com suas Lives ou mesmo no Twitter, com o Periscope. Muito embora alguns recursos não fossem semelhantes e nenhum deles apostasse no formato dos seis segundos, eles produziam a mesma mídia: vídeo. E como bem analisa Saba Hamedy, do Mashable, dar mais recursos ao invés de menos aos usuários parece ser a estratégia mais acertada, e não o contrário, nesse universo.

Social Media Apps on Apple iPhone 6s Plus Screen

Além disso, o Twitter, falhou — novamente — em criar um sistema de monetização não apenas para o seu produto, mas também para os seus criativos. O Vine é legal, e tal, mas por que ser fiel a uma plataforma se a grama do vizinho é mais verde e até dá dinheiro?

O fim de uma comunidade importante

A Fast Company, que foi falar com alguns Viners famosos, ressaltou um aspecto importante: a comunidade que, aparentemente, o Twitter não soube aproveitar. Como uma empresa, o Vine até que alimentava ativamente suas relações com os criadores, apoiando seu esforços. Como comunidade, os usuários muitas vezes demonstraram uma senso de camaradagem único e que tomou várias formas, desde a reverência digital, como Likes e Compartilhamento, até comentários e amizades na vida real. Mas, no final do dia, o Vine é um produto que enquanto tal não estava dando dinheiro nem para o Twitter e nem para as suas celebridades.

A revista Time foi além e destacou não apenas a força da comunidade em geral, mas também a força da comunidade negra dentro do Vine. E o quanto o Twitter erra em não mais apostar nessa base de usuários que era muito mais diversificada do que na rede social de 140 caracteres. Para Alexandra Erin, humorista autora do texto, ao abandonar essa base de usuários diversa e capaz de fazer muito com apenas seis segundos e dar preferência ao Twitter, um local que, sabe-se, está cheios de trolls, a rede social do passarinho azul pode ter sentenciado a própria morte ao invés de ganhar tempo.

Segundo Jazmine Hughes, no New York Times, o Vine se tornou um plataforma particular para disseminar a cultura negra, algo que, na superfície, é engraçado para a grande maioria das pessoas, independente da raça, mas que, em uma segunda camada, é feita para os negros porque se baseia na sua cultura, experiências e entendimentos. E, citando o escritor Kasai Richardson, que postou no Twitter sobre o Vine, ela sublinha: “a juventude negra fez mais em seis segundos do que Hollywood tem feito em seis décadas”.

Logo após o anúncio do fim do Vine — postado em outra plataforma irmã do Twitter, o Medium — surgiu um boato de que a rede social talvez pudesse ser vendida. E, conforme analisou a Fortune, essa venda até poderia render algum dinheiro e frutos nas mãos corretas. Porém é sabido já que não adianta contar apenas com o amor da sua comunidade: para o Vine continuar vivo é preciso dar dinheiro e, enquanto plataforma, sair da adolescência. Caso contrário, Brian Patrick Eha, da revista The New Yorker pode estar certo quando diz que o Vine era um mau negócio para o Twitter. E, mais do que isso: que no ritmo que estão as inovações tecnológicas, talvez os verdadeiros visionários sejam aqueles que sabem ignorar novidades como o Vine, que assim como nascem e bombam, murcham e morrem em quatro anos.

Logan Paul, o Viner que hoje é ator, comentou sobre o fim da rede social: “Honestamente, é triste, mas não posso dizer que não o vi chegando. Estava claro. Todos os criadores do Vine sabíamos que nossa casa, o lugar em que começamos, estava chegando lentamente em um platô. Eu senti que era inevitável em um certo ponto”.

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